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Introdução da ASE na China pelas Múltiplas Inteligências

Atualizado: Mar 3


Múltiplas inteligências e as escolas da China


"Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas." - Cora Coralina

A teoria desembargou na China logo após sua divulgação, em 1985, levada pelas mãos da dra. Jie-Qi-Chen, aluna de Gardner e parceira do Projeto Zero, escola de educação infantil da Escola de Psicologia da Cognição de Harvard, dirigida pelo dr. Howard Gardner desde 1967.

Chen foi fundadora da precoce Math Collaborative e professora de desenvolvimento infantil no Erikson Institute, com sede em Chicago – IL, fundado pelo renomado psicanalista Erik Erikson, responsável pelo desenvolvimento da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial na Psicologia e um dos teóricos da Psicologia do Desenvolvimento.

O trabalho de Chen se concentra em desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento profissional de professores, avaliação de sala de aula, educação matemática cedo, aplicação da teoria das múltiplas inteligências e intervenção em meio escolar. Começou sua carreira como professora em sala de aula.

Ensinou na pré-escola, no fundamental e em escolas de ensino médio na China e na pré-escola e jardim de infância nos Estados Unidos. Por mais de 20 anos, ela tem contribuído para os esforços de desenvolvimento profissional de professores em Boston e Chicago Public Schools. Ela também tem enriquecido a avaliação e o desenvolvimento de currículos em programas de primeira infância.

Nos últimos 10 anos, a teoria das MI teve uma influência muito grande na reforma educacional da China e se tornou muito mais popular do que no Estados Unidos, onde nasceu. A introdução bem-sucedida da teoria das múltiplas inteligências na China pode ser percebida em todo o território e em todas as séries escolares. A implantação não foi uma transferência direta, passou por uma forte aculturação e a soma de esforços políticos, culturais e educacionais contribuiu muito para sua difusão.

A cultura chinesa conceitua a inteligência como um atributo da família. Por isso, houve um esforço muito grande para que as escolas envolvessem as famílias no processo de implantação. As implementações na China não foi cópia do uso da teoria nos EUA, acolhendo a perspectiva válida e autêntica das MI sobre a natureza humana e sobre as habilidades intelectuais.

Ao envolver as famílias no processo de implementação da teoria, os educadores visaram ao desenvolvimento da inteligência intrapessoal e buscaram um ambiente propício fora da escola para o desenvolvimento de todas as nove inteligências.

O fato de envolver as famílias foi um dos passos mais bem-sucedidos do processo de implementação da teoria na China. Acredito que a mesma estratégia deve ser adotada pelo Brasil. Inicialmente, soou-me estranho ouvir que a inteligência era vista como um traço da família e não do indivíduo. Porém, com o decorrer dos nossos estudos sobre a teoria, ficou claro esse conceito. O que entendemos dessa afirmação é que o ambiente familiar reflete no desenvolvimento das inteligências e, portanto, o trabalho na família reflete como um todo no indivíduo.

Política de portas abertas


"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses." - Rubem Alves

Como se sabe, a China ficou isolada do mundo por 30 anos (1949-1979), até que, em 1980, a política de portas abertas de Deng Xiaoping restabeleceu contato com o mundo. Houve uma explosão na busca por conhecimento e informações, o povo estava ávido por saber o que acontecia no mundo. A declaração que marcou o governo de Deng foi: “Não importa se o gato é preto ou amarelo; caçando ratos, o gato é bom”.

Com isso, os chineses deram início a uma busca de ideias e práticas ocidentais como a livre concorrência, a propriedade privada e métodos de ensino como o Montessori, só para citar alguns exemplos. Nesse cenário, foi possível a introdução da teoria das MI na China.

Virada educacional


"Toda alma é uma música que se toca." - Rubem Alves

O sistema educacional chinês não estava preparado para a demanda gerada a partir da política de portas abertas. Com uma educação completamente voltada para o vestibular, os chineses são famosos pelo foco em testes específicos. Porém, o mercado percebeu que os jovens não estavam sendo preparados para a vida ou para o trabalho.

Houve, então, uma grande mobilização, por parte dos educadores, na busca por novas práticas de ensino que atendessem à demanda do crescimento econômico imposto pela política de portas abertas.

O ministério da educação da China respondeu ao apelo dos educadores e, em três diferentes momentos, criou as Diretrizes da Reforma do Sistema Educacional Chinês (1985), as Diretrizes da Reforma e Desenvolvimento Educacional da China (1993) e a Diretriz para a Reforma de Currículo na Educação Compulsória (2001).

Essas diretrizes deveriam atender aos seguintes pré-requisitos: respeitar as características evolutivas das crianças, dar atenção à individualidade e dar ênfase à aprendizagem ativa. Como a teoria das MI atendia a todos os pré-requisitos, o ministério da educação identificou-a como estrutura fundamental para reforma curricular.

Conceito de inteligência na China


"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas." - Rubem Alves

Como dito anteriormente, os chineses veem a inteligência como um traço da família e não do indivíduo. A origem desse pensamento remete à tradição confuciana e até hoje é muito valorizada pelo povo chinês. A família é considerada um agente coletivo da inteligência. Principalmente quando a criança é pequena, para os chineses, é difícil desassociar pais e filhos do ponto de vista existencial, emocional ou intelectual. Para Confúcio, a família é uma unidade fundamental e irredutível quando os filhos são pequenos.

Dentro dessa concepção, os chineses implantaram a teoria das MI. Na metodologia de implantação da teoria, foi reservado espaço amplo para a participação da família. Escolas foram abertas no período da noite e em fins de semana para que os pais recebessem treinamento na teoria. Além disso, eles foram incentivados a dividir com os professores percepções sobre seus filhos e as múltiplas inteligências.

Os educadores trataram as inteligências de todos os membros da família com o objetivo de contribuir na educação das crianças, entendendo que as inteligências das crianças eram uma extensão da família. O alinhamento dos pais com os professores foi fundamental para o desenvolvimento da teoria e, consequentemente, das crianças.

Os chineses deram muita ênfase ao desenvolvimento da inteligência intrapessoal das crianças. O currículo voltado para as MI ensina as crianças a entender sentimentos, valores, necessidades, interesses e esforços de seus pais ao criá-los. Esse processo trouxe um beneficio muito grande ao núcleo familiar – tanto os filhos passaram a entender melhor o esforço dos pais quanto os pais passaram a respeitar mais a individualidade de seus filhos, contribuindo, de forma singular, para o surgimento de autoconsciência e para a formação da identidade da criança. Com esse trabalho, cresceu muito o desenvolvimento das inteligências intrapessoal e interpessoal da família como um todo.

Como a sociedade chinesa entendeu a teoria das MI


"Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores." - Provérbio Chinês

A China percebeu que a teoria das MI respeitava um dos principais conceitos da sociedade chinesa, a harmonia. Ao conceituar inteligência, a teoria das MI promove o pluralismo e a igualdade, indo de encontro aos principais filósofos que influenciaram a educação e a cultura chinesas.


Em vários países em que a teoria das MI foi implantada, os educadores trabalharam na observação dos perfis das crianças e na identificação das qualidades intelectuais.

Na China, os educadores relutam em usar o termo qualidades, pois acreditam que seria um erro considerar como qualidades realizações relacionadas a uma única inteligência, como o uso da inteligência linguística para escrever um romance ou da inteligência musical para se apresentar no palco.


Para os chineses, essas caracterizações correm o risco de sugerir que uma inteligência funciona e tem correlação única com um determinado tipo de desempenho. Eles acreditam que ao invés de se concentrar apenas nas qualidades, é importante se concentrar na mesma proporção nas limitações ou vulnerabilidades, criando um contexto global do indivíduo e evitando, com isso, um entendimento parcial e incompleto da criança.


Os educadores chineses viram na teoria das MI uma oportunidade de potencializar os pontos fortes e ajudar as crianças no entendimento de suas limitações e vulnerabilidades, assim como o apoio de como superá-las.

Todo esse trabalho buscou dar harmonia ao processo educacional, valor fundamental da cultura chinesa.


Seguindo orientação do projeto nacional lançado pelo ministério da educação chinês, muitas escolas buscaram preservar a harmonia equilibrando a relação entre mais e menos no currículo e no ensino.

A ideia de que “menos é mais” se tornou um princípio pedagógico em muitas instituições chinesas.

A dra. Jie-Qi-Chen explica:

“Os professores dessas escolas começaram a entender o significado e o valor de ensinar “menos”, usando a estrutura das MI. Ensinar “menos” significa que os professores e seus alunos buscam o conhecimento profundo sobre conceitos relacionados que possam ser aplicados a atividades cotidianas. O domínio desse conhecimento profundo, na forma de conceitos e habilidades fundamentais, leva os estudantes a explorar aplicações de conceitos em uma ampla gama de áreas curriculares. Ao explorar aplicações, os alunos encontram novos conceitos e habilidades fundamentais que passam a ser objetivos do novo ciclo de aprendizagem. Durante esses ciclos, os professores equilibram profundidade de conhecimento e compreensão com amplitude de exposição e diversidade de oportunidades de aprendizagem.”

Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências.

Os educadores chineses, quando aplicam a teoria das MI, buscam avançar rumo a uma educação coletiva individualizada.Inspirados na teoria das MI proposta na reforma curricular, os professores pedem aos alunos do ensino médio que gerem perguntas baseadas em materiais de revisão, em vez de simplesmente responder às perguntas formuladas por eles.

Professores chineses e a teoria das MI


"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida." - John Dewey

A teoria chegou na China em meio a um conflitante trabalho dos professores, que estavam lutando bravamente para aliviar a pressão sobre os estudantes e, ao mesmo tempo, tendo que prepará-los para o vestibular.

A teoria teve uma aceitação muito grande por parte dos professores, porque era coerente com a nova política educacional chinesa: “Educação para qualidade”.

A nova política prega que as escolas devem desenvolver formas diferentes de aprender e de se desenvolver, e que a excelência acadêmica não deve ser a única forma de avaliar o desempenho dos alunos.

Hoje, com a introdução dos pais no processo de aprendizagem, professores e pais estão sensíveis às outras habilidades dos alunos, como artes, esportes, música e educação moral.

Os educadores passaram a dar mais atenção a casos de alunos que não se saíram bem no ensino formal, mas se revelaram prodígios em outra área.

Atualmente com 2 bilhões de habitantes, a China não disponibiliza orçamento para educação proporcional a sua população. Salas de aula com 60 alunos, em média, dificultam o conceito de educação para qualidade e reforçam a prática de educar para exames. Assim como é no Brasil, os chineses acreditavam que o único caminho para o “sucesso” de seus filhos era a faculdade e essa crença alimenta o círculo vicioso de se educar para os testes.

Muitas escolas usam o discurso de “Educação para qualidade”, mas, na prática, aplicam “educação para exames”.

Dra. Chen explica:

“Os educadores chineses chegaram à etapa da prática reflexiva em MI. Após o estágio inicial de exploração da teoria, seguida de amplas atividades de implementação, agora sentem a necessidades de realizar o que se chama de “processo de reflexão calma”. No centro desse processo está como integrar mais a teoria ao contexto chinês contemporâneo.

O objetivo da prática reflexiva é usar a teoria das IM para atender às necessidades da reforma educacional chinesa e implementar as práticas baseadas nessa teoria que são marcadas por características chinesas específicas.”

Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências.

Múltiplas Inteligências – Organizando o Movimento


"A educação começa com a poesia, firma-se com a autodisciplina e completa-se com a música." - Confúcio

Com o intuito de atender à forte demanda de professores e pais que estavam ávidos por entender como trabalhar com as MI, foi fundada a Multiple Intelligences Education Society of China – MIESC, uma organização sem fins lucrativos, em abril de 2003, compondo-se de escolas, professores e pais dedicados a ideias e práticas das IM. Observa-se que a organização nasceu 8 anos depois do início da divulgação da teoria no país.

Foram organizados oficinas, seminários e conferências para professores, administradores de escolas e formuladores de políticas, normalmente organizados em parceria com a comissão local de educação.

A organização tem realizado um trabalho catalisador com todas escolas que trabalham com a teoria das MI, incentivando que o máximo de ações envolvendo as MI seja registrado e posteriormente compartilhado. Dá, ainda, suporte na avaliação de currículos, instalações e programas de formação de professores e pais.

A teoria teve um grande impacto nas escolas especiais, pois ofereceu à instituição e a seus professores uma nova forma de ver as potencialidades dos alunos. Acreditamos que esse é um passo importante, o primeiro na etapa de implantação, fazendo com que os professores e pais entendam que todos os alunos têm um potencial latente que precisa ser desenvolvido.

A teoria trouxe luz para as escolas especiais, uma nova forma de ver as capacidades e as limitações singulares de cada aluno, e de elaborar atividades para eles.

Os alunos adoraram os novos programas e ganharam mais autoconfiança, porque seus talentos foram identificados e incentivados e suas dificuldades, evitadas. Vários deles participaram dos Jogos Paralímpicos e ganharam prêmios.

Em uma dessas escolas, uma professora descobriu que uma de suas alunas, SiruiJia, tinha a inteligência corporal-cinestésica bem destacada e passou a incentivá-la na prática de ginástica. A menina se especializou em manobras no “cavalo” e foi medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos. Após se tornar mundialmente conhecida, foi nomeada embaixadora internacional da organização, sendo recebida na Casa Branca por três diferentes presidentes.

Histórias como a de Sirui-Jia servem de inspiração aos professores da escola, onde as aulas de música e trabalhos manuais passaram a ser as mais procuradas.

O público que visita a escola fica impressionado com a alegria com que as crianças participam das aulas de músicas, constroem instrumentos e fazem artesanato em madeira, porcelana e tecido.

O sucesso do trabalho levou o governo chinês a convidar a MIESC para o comitê de reforma do ensino técnico e encomendou um estudo para a aplicação da teoria em todo o ensino técnico da China.

MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA CHINA CONTINENTAL


"Educação é que nem moeda de ouro,é valida no mundo todo." - Provérbio Chinês

Vários fatores contribuíram para a penetração da teoria das MI na China. Entre eles, o contato com a teoria logo após sua criação e a admiração da cultura chinesa pelo dr. Howard Gardner.

O público que se encantou logo de início pela teoria foram os professores de música. Alguns arte-educadores confirmam haver inteligência existencial em conexão com as artes e tentam inspirar a experiência cristalizadora dos estudantes com a inteligência existencial por meio da apreciação da música.

No final do século XX, a teoria já havia ganhado corpo na China inteira. Das grandes cidades a pequenos vilarejos, diversos congressos sobre aplicação da teoria foram promovidos, alguns deles com a presença do dr. Howard Gardner.

Frente ao impacto promovido pela teoria junto aos educadores e à Associação Educacional da China, surgiu um projeto chamado Pesquisa Aplicada da Teoria das Múltiplas Inteligências no Desenvolvimento do Potencial dos Estudantes. Em fevereiro de 2002, mais de 150 escolas do ensino infantil a universidades promoveram significativo movimento simultâneo em prol do estudo da teoria.

O objetivo do projeto era estudar a teoria e sua aplicabilidade, ou seja, a prática. Para tanto, patrocinou quatro grandes conferencias sobre o tema, algumas atraindo pessoas do mundo todo. Em decorrência desse movimento, estima-se a publicação acima de 3.200 artigos e mais de 100 livros sobre a teoria traduzidos para o chinês. O livro “Múltiplas inteligências – A teoria na prática” permaneceu entre os livros educacionais mais vendidos no decorrer de 2003.

O Ministério da Educação da China, em 1999, realizou outro grande movimento em prol da melhoria da educação, lançando o programa “Educação para o caráter”.

Ele deveria ser aplicado a todos os estudantes, sem exceção.

Os educadores chineses foram devidamente orientados que o propósito da educação passava a ser o de promover o desenvolvimento em termos morais, intelectuais, físicos e estéticos.

A teoria das MI deixava de ser um luxo para se tornar uma necessidade, pois o novo programa educacional exigia que fossem criadas diferentes formas de abordagem do mesmo tema, com o intuito de trazer à tona as mais diversas aptidões dos alunos.

O programa “Educação para o Caráter” foi considerado o mais importante movimento do século XX para educação chinesa. Propôs reforma no conteúdo e na metodologia do ensino, mudou o processo de ensino e aprendizagem e, ainda, provavelmente, o passo mais decisivo: mudou o sistema de seleção dos professores.

Outro grande salto da nova política foi dado em 2004. O ex-vice-premier da China publicou um livro de reflexões sobre o projeto “Educação para o Caráter” e cita diretamente a teoria das MI e os estudos do Dr. Howard Gardner.

Ele escreveu: “A teoria do Dr. Gardner, das múltiplas inteligências, evita as teorias tradicionais sobre inteligências e afirma que cada pessoa tem suas qualidades devido a diferenças nessas oito categorias. Sua teoria oferece um panorama amplo das capacidades individuais das pessoas e defende adágios como ‘os céus nos concederam o talento e também encontrarão seu uso um dia’ e ‘todo ofício gera seus próprios mestres’. [...] Ela proporcionou uma importante inspiração e valiosas referências para nossos esforços de realizar a educação para o caráter” (Li, 2004 , p. 316).

Ainda citou que a teoria das MI prega que o propósito das escolas deve ser o de desenvolver as diversas inteligências nos alunos, conduzindo-os para atingirem objetivos educacionais adequados a seus espectros de inteligências. Na opinião dele, a teoria das MI dava ampla sustentação à reforma proposta pelo projeto “Educação para o Caráter”.

PAPEL DAS ARTES NA REFORMA “EDUCAÇÃO PARA O CARÁTER”


"A finalidade da arte é, simplesmente, criar um estudo da alma." - Oscar Wilde

É importante relembrar o cenário em que a teoria das MI desembargou na China. Começava o movimento de abertura do país para o mundo depois de 30 anos da política de linha dura que fechou a China.

Esses anos foram devastadores para a educação artística. Porém, estamos falando de uma cultura milenar e, por isso, esses 30 anos não afetaram em nada a sociedade intelectual, artística e o próprio povo.

Vale ressaltar que o maior filósofo chinês, Confúcio (551-479 a.C.), além de filósofo e educador, foi um excelente músico, compositor e professor de música.

Ele pregava, quase 500 anos antes de Cristo, que a poesia e a música eram essenciais para a vida e formação de um cidadão. Nos seus milhares de textos, defendia que o desenvolvimento da moralidade começava com uma boa base em literatura e artes, seguindo para a música e declarou: “Inspire-se nos poemas, fortaleça sua moralidade com ritos e encontre sua realização na música” (Confucian Disciples, 1977, p. 33).

Confúcio defendeu que a educação tinha dois pilares fundamentais: educar sem distinção entre classes sociais e perfis de inteligência e ensinar os alunos usando diferentes materiais e abordagens.

Fica claro por que a teoria se propagou tão rápida e fortemente na China: ela defendia seus principais conceitos seculares.

Gardner defende, na sua teoria das MI, a interação entre disciplinas: educar de forma diferente pessoas diferentes. As pessoas, necessariamente, não aprendem da mesma forma e por isso o mesmo conteúdo deveria ser abordado por diversas perspectivas.

Outra conexão defendida pela teoria é a das artes com ciências. Como psicólogo evolutivo, neurocientista e pianista, Gardner chama a atenção para a centralidade das artes na educação. Essa centralidade é aplicada na íntegra no Projeto Zero, dirigido por ele desde 1967.

Ele afirma que qualquer inteligência funciona artisticamente, ou seja, artes são transversais na educação e, de forma direta, impactam as inteligências – musical, espacial-visual, cinestésica-corporal, lógico-matemática e linguística. Subjetivamente, mas com forte impacto, temos as inteligências intrapessoal e interpessoal, uma vez que as artes estão diretamente relacionas às emoções e à capacidade de expressá-las.

Os chineses acreditam que as artes estão diretamente conectadas com a inteligência existencial, já que artes, para os chineses, são a manifestação da inteligência existencial. Existem diversas obras mundialmente conhecidas que expressam o amor pela natureza, fechando, assim, a conexão artes x múltiplas inteligências.

Múltiplas inteligências na China – Resumo


"A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação." - Eça de Queirós

Em suma, acredito que o sucesso da implantação da teoria na China pode ser traduzido como uma somatória de fatores.

– A teoria vai de encontro à filosofia de vida dos chineses, o processo de entendimento foi muito simples.

– A relação profunda que Gardner mantém com a cultura chinesa e seu apoio direto foram muito importantes.

– A teoria nasceu em Harvard, universidade mais admirada no mundo pelos chineses.

– A teoria abrange todos os preceitos das novas políticas educacionais propostas pelo governo.

– A nova política educacional da China, onde menos é mais, coincide com a teoria e com os pensamentos de toda a equipe educacional de Harvard, incluindo o dr. Howard Gardner.

– Os chineses defendem que devemos diminuir a profundidade dos conteúdos na grande maioria das matérias, mantendo a amplitude do ensino, e aprofundar em pelo menos quatro, mantendo a profundidade. Em resumo, manter a amplitude e diminuir a profundidade na maioria das matérias, e manter a profundidade em matemática, ciências, história e artes.

– A organização formal para conduzir o assunto e o apoio do governo foram fundamentais, incluindo o patrocínio pelo governo em conferências, palestras e intercâmbios.



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