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Múltiplas Inteligências


Múltiplas inteligências – Howard Gardner


"Frequentemente, enfrentamos uma série de grandes oportunidades habilmente disfarçadas em problemas insolúveis.” - Howard Gardner

A teoria das Múltiplas Inteligências começou a ser desenhada em 1979, quando a fundação “Bernard Van Leer” com sede na Holanda, destinou uma verba à Escola de Pós-Graduação de Harvard para responder à seguinte pergunta: “O que se sabe sobre a natureza e a realização do potencial humano?”. Coube ao Dr. Howard Gardner a coordenação dessa pesquisa.

Filho de judeus vindos da Alemanha devido a perseguição nazista durante a segunda guerra mundial, Dr. Gardner ingressou na Universidade de Harvard em 1961. Conheceu, então, o Dr. Erik Erikson, teórico da Psicologia do Desenvolvimento e psiquiatra responsável pelo estudo da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial do Departamento de Psicologia de Harvard.

Desse relacionamento surgiu seu interesse pelo estudo das relações sociais, com abrangência das seguintes áreas do conhecimento: psicologia, sociologia e antropologia voltada à psicologia clínica.

Após conhecer o psicólogo cognitivo Jerome Bruner e a obra de Jean Piaget, o Dr. Gardner trocou seu campo de interesse. Em 1971, terminado o doutorado com dissertação sobre sensibilidade de estilo em crianças, ainda em Harvard, passou a trabalhar juntamente com Nelson Goodman, coordenando o grupo de pesquisa em educação pela arte conhecido como Project Zero.

Esse projeto, fundado em 1967, objetivava: o estudo sistemático do pensamento artístico; a criatividade em arte, e; disciplinas da área humana e científica, atendendo o indivíduo e a instituição.

Em 1979, o Dr. Gardner assumiu a coordenação da pesquisa financiada pela Fundação Van Leer. Acumulava, assim, as funções de: professor de cognição e educação da Universidade de Harvard; professor adjunto de neurologia da Universidade de Boston; coordenador, no Boston Veterans Adm. Medical Center, do estudo em vítimas de dano cerebral; coordenador do já citado “Projeto Zero”; além de pesquisador e psicólogo do Cambridge/Boston.

Entre 1979 e 1983, Gardner desenvolveu a teoria das “Múltiplas Inteligências”, reconhecida como a mais inovadora teoria da cognição elaborada no século XX. Ela promete revolucionar o processo educativo do século XXI. O estudo culminou com a publicação do livro “Estruturas da Mente”, em 1983.

Na época, chamou a atenção do Dr. Gardner o fato de que a teoria e o seu respectivo livro não despertaram interesse nos seus colegas psicólogos, que os deixaram praticamente no anonimato. O contrário se deu na área da educação em que a Teoria das Múltiplas Inteligências a impactou fortemente.

Com efeito, no início da década de noventa, a comunidade acadêmica, em dezenas de países, questionava rigorosamente a qualidade do sistema educacional então vigente e a forma de ensinamento que se praticava nas escolas. Assim, quando o Dr. Howard propôs uma visão pluralista da educação e, consequentemente, da escola, evitando, com isso, o que chama de visão unidimensional gerada pelas políticas educacionais fundamentadas em testes de QI e SAT ( Scholastic Aptitude Test-SAT), os educadores o aplaudiram.

Dr. Howard Gardner descreve:

“Se não tivesse trabalhado junto dessas populações – crianças normais e superdotadas e as que haviam sido normais e sofreram dano cerebral – eu nunca teria concebido minha teoria das múltiplas inteligências (MI, como veio a ser chamada depois). Como a maioria das pessoas leigas e a maior parte dos outros psicólogos, teria continuado a acreditar na ortodoxia do quociente de inteligência (QI): na existência de algo único chamado inteligência, que nos permite fazer uma série de coisas mais ou menos bem, dependendo do quanto somos “inteligentes”. Nascemos com um determinado potencial intelectual que é, em grande parte herança (ou seja, nossos pais biológicos são os principais determinantes de nossa inteligência), e os psicometristas são capazes de nos dizer nosso nível de inteligência administrando testes nesse campo. Entretanto, todos os dias em que trabalhava, eu entrava em contato com exceções evidentes a essa ortodoxia.”

(Howard 15) – Howard, GARDNER, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Inteligências Múltiplas

Assim, na sua opinião, essa visão unidimensional cria “escolas uniformes” para atender diferentes demandas, o que não condiz com o ensino voltado ao aluno.

Múltiplas inteligências – Teoria​


“Todo mundo é inteligente. Mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele vai passar a vida inteira pensando que é estúpido.” – Einstein

À frente da equipe de colaboradores na pesquisa para responder as questões elaboradas pela Fundação Van Leer, Dr. Gardner orientou um estudo que se debruçou sobre a vasta literatura então existente sobre cognição: pesquisas genéticas; estudos de neurociência; psicologia; educação; antropologia e outras disciplinas afins que geraram a formulação da Teoria das Múltiplas Inteligências, a qual, por sua vez, revolucionou o mundo científico da cognição, principalmente na área das ciências humanas, dando-lhes espetacular salto de qualidade.

O Dr. Howard cunhou a nova definição de inteligência como sendo a “capacidade de resolver problemas e elaborar produtos, valorizados em um ou mais ambientes culturais ou comunitários”. Estabeleceu critérios para as definições de inteligência, cujo conjunto, segundo afirma o próprio Dr. Howard, é a mais importante característica da Teoria das Múltiplas Inteligências.

O ponto alto da teoria é a capacidade humana de desenvolver, durante a vida, as inteligências do intelecto. Todos terão seu perfil modificado pelas influências dos afetos trocados no transcorrer de sua existência. Essas trocas afetivas e diversos outros estímulos recebidos ajudarão para que as inteligências atinjam altos patamares de excelência, ou, caso sejam negativos esses estímulos, as prejudicarão, estagnando-as ou atrofiando-as por falta de uso e\ou incentivo.

Assim, quando do nascimento dessa teoria, foram identificadas sete inteligências. Vinte e cinco anos após a sua publicação, surgiu a oitava inteligência e, atualmente, existe uma nona em análise avançada.

As setes inteligências originalmente concebidas são:​

Inteligência Intrapessoal;

Inteligência Interpessoal;

Inteligência Lógico-Matemática;

Inteligência Linguística;

Inteligência Musical;

Inteligência Cinestésica-Corporal;

Inteligência Espacial-Visual.

Vinte cinco (25) anos mais tarde:

Inteligência Naturalista.

Em estudo avançado (stand by):

Inteligência Existencial.

No estudo das Múltiplas Inteligências existem afirmações relevantes:

Todos os seres humanos possuem essas inteligências (elas nos tornam humanos, falando em termos cognitivos). Pode-se nascer com algumas inteligências mais desenvolvidas do que outras, porém algumas podem ficar latentes a vida inteira por falta de estímulo;

A teoria sugere que devemos investir nas inteligências que estão mais desenvolvidas e por meio delas buscar desenvolver as inteligências latentes, ou pouco desenvolvidas.

O Dr. Gardner afirma:

Todas as inteligências são estimuladas pelas artes, de modo especial as artes cênicas e música. Cinco inteligências tem o seu uso direto na produção de um espetáculo: musical; espacial; corporal-cinestésica; lógica-matemática e linguística. Percebe-se forte conexão das inteligências intrapessoal e interpessoal com a música. Essa característica foi logo percebida, e a teoria ganhou uma força extraordinária junto aos professores de música e artes.

Não existem dois seres humanos idênticos, nem mesmo gêmeos idênticos com o mesmo perfil em suas potencialidades e limitações. Visto que as operações executadas no dia a dia exigem o uso de mais de uma inteligência e como o desenvolvimento das inteligências está relacionado com estímulos recebidos, é impossível prever um desenvolvimento igual.

A teoria ainda afirma que todas as pessoas podem desenvolver uma de suas inteligências em qualquer idade, isso contrariou completamente a teoria do QI (quociente de inteligência). Com efeito, a teoria das “Múltiplas Inteligências” veio em substituição a teoria do “QI”, causando grande impacto na área educacional mundial. Acabou com 85 anos de hegemonia da teoria de Binet.

A teoria do “QI” nasceu em Paris, no ano de 1900, onde pais da elite da cidade procuraram o psicólogo Alfred Binet com um pedido incomum: seria possível ele desenvolver algum tipo de medida que predissesse quais crianças iriam ter sucesso e quais iriam fracassar nas séries primárias das escolas parisienses?

Como já é notório, Binet conseguiu tal façanha, sendo que sua descoberta veio a ser chamada de “teste de inteligência” e, sua medida, o “QI”.

A teoria de Binet cruzou o Atlântico e chegou aos Estados Unidos onde teve modesto sucesso até o advento da primeira guerra mundial, quando as forças armadas dos EUA utilizaram o “teste de inteligência” de Binet para testar mais de um milhão de recrutas americanos, tornando-o célebre.

A partir desse momento a teoria de Binet pareceu o maior sucesso da psicologia – um instrumento científico genuinamente útil que permitia quantificar a inteligência. Com efeito, o método de Binet media a inteligência real ou potencial de uma pessoa.

O mercado absorveu a teoria de Binet e, rapidamente, ela ganhou destaque na mídia. Empresas ofereciam aos pais e escolas os teste de QI e o Teste de Aptidão Escolar – SAT (School Aptitude Test). O SAT pretende ser um tipo semelhante de medida acrescido dos resultados verbais e matemáticos da pessoa, classificando-os em uma única dimensão intelectual.

Esta visão unidimensional de como avaliar as mentes produziu escolas com “visão uniforme”, conforme definiu o Dr. Gardner. Nas escolas uniformes existe um currículo essencial e poucas disciplinas eletivas. Adota-se avaliações regulares, tipo lápis e papel, da variedade QI e SAT. Neste caso alunos com “QI” mais elevados se destacam porque os testes ressaltam as suas principais inteligências: inteligência lógico-matemática e linguística.

Exemplificando o que Gardner ressalta em sua teoria, imagine uma escola onde as artes predominassem e as avaliações fossem voltadas a atender o objetivo da escola, qual seja, artes e música. Nesse caso, se pegássemos os mesmos alunos avaliados pelos testes de QI e SAT, do tipo lápis e papel, e aplicássemos o método das múltiplas inteligências, teríamos um resultado bem diferente.

* Isso ilustra o quanto escolas uniformes estão desperdiçando talentos. O maior crítico da teoria das “Múltiplas Inteligências” na Dinamarca, após reconhecer a grandiosidade da teoria, publicou: “Passei a vida inteira em uma sala de aula com nove (9) floreiras, irrigando somente duas”. Enfim, reconheceu publicamente que só havia dado atenção aos alunos com inteligência lógico-matemática e linguística.

Múltiplas inteligências – Definindo Inteligências


“A não ser que o homem consiga desenvolver uma pílula da paz, ou eliminar os genes da violência, o único caminho que acredito é o da educação.” - Howard Gardner

A questão da definição do que é uma inteligência ótima foi o ponto central dos estudos da equipe do Dr. Gardner. O núcleo da divergência entre a teoria das múltiplas inteligências e a visão tradicional foi, exatamente, a definição de inteligência. Nessa última, a inteligência é definida como a capacidade de responder a determinados itens em testes tradicionais. Já na teoria das múltiplas inteligências essa definição é mais complexa.

Com a cooperação de talentosos assistentes de pesquisa, a equipe do Dr. Gardner, patrocinada pela Fundação Van Leer, levantou as principais literaturas sobre cognição, incluindo estudos em genética, neurociência, psicologia, educação, antropologia e outras disciplinas e subdisciplinas. Esse levantamento não apenas fortaleceu sua intuição de que a aprendizagem não era monolítica, como também proporcionou fortes evidências empíricas com as quais embasou sua afirmação.

Restavam dois pontos que precisavam ser definidos: como chamar essas faculdades humanas e a sua definição propriamente dita. Dr. Gardner cogitou vários nomes, mas decidiu chamá-las de “inteligências humanas”. Ele relata que parte do sucesso da teoria se deve ao fato de ter chamado de “inteligência”, fato que mexeu com alguns psicólogos, gerando caloroso debate.

Assim, o Dr. Gardner definiu inteligência como um potencial biopsicológico de processar informações sob determinadas maneiras para resolver problemas ou criar produtos que sejam valorizados por, pelos menos, uma cultura ou comunidade. “O que observei de forma intensa em indivíduos com danos cerebrais, o que Oliver Sacks e Alexander Luria escreveram sobre perspicácia, é, na verdade, a condição humana. O que costumamos chamar de “inteligência” é uma combinação de determinadas habilidades lógico-linguísticas, particularmente as que são valorizadas na escola secular moderna.” (Howard 18) – Howard, GARDNER, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências .

Os critérios utilizados para se formular a definição de inteligência foram consequência das várias disciplinas que Dr. Gardner vinha pesquisando. Para ele, uma inteligência se enquadra razoavelmente bem aos oito critérios que seguem:

Isolamento potencial por dano cerebral;

Existência de “idiotas sábios”,

prodígios e outros indivíduos excepcionais;

Operação central ou conjunto de operações identificáveis;

Trajetória de desenvolvimento característica;

Culminando em desempenho especializado;

História e plausibilidade evolutivas;

Apoio de tarefas psicológicas experimentais;

Apoio de dados psicométricos;

Suscetibilidade à codificação em um sistema simbólico.

Afirma: “Considero o conjunto de critérios como a mais original e mais importante característica da teoria das Múltiplas Inteligências. Qualquer um pode criar outras inteligências, mas, a menos que elas se ajustem a alguns critérios, postular uma inteligência se torna um exercício de imaginação, e não um trabalho com base no conhecimento acadêmico. Curiosamente, nem os apoiadores nem os críticos da teoria prestaram muita atenção aos critérios. Desde o começo, deixei claro que sua aplicação era, em alguma medida, uma questão de avaliação. Não há regra inamovível para determinar se uma candidata a inteligência cumpre ou não os critérios.” (Howard 18) – Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências

Múltiplas inteligências – Pesquisa e Desenvolvimento


“Há instantes em que os homens são senhores do seu destino.” - Shakespeare

Pois bem. Essa teoria sustenta que não se pode priorizar as inteligências, como até então fora feito, conferindo uma valorização exacerbada para as inteligências lógica-matemática e linguística. Para o Dr. Gardner, todas as inteligências têm o mesmo valor não fazendo sentido a priorização de umas em detrimento de outras.

Infelizmente, a maioria absoluta dos testes usados em todos os níveis do nosso ensino estão baseados nessa alta valorização das capacidades verbais e matemática. Ora, pessoas com inteligência lógica-matemática e linguística podem se sair bem em testes de QI ou SAT e seguirem seu curso superior com base nessas duas inteligências. Porém, no exercício de suas profissões, dependendo da especialidade que exercerem, poderão requerer a necessidade de outras inteligências. Por exemplo, uma pessoa formada em medicina que for atuar na área clínica, necessitará da inteligência interpessoal que, neste ramo, é muito relevante. Já, para um cirurgião a inteligência cinestésica-corporal é de vital importância, uma vez que a habilidade manual é um requisito fundamental.

A teoria das Múltiplas Inteligências revolucionou o mundo científico da psicologia da cognição, principalmente as ciências humanas, dando-lhes espetacular salto de qualidade. Estabeleceu-se critérios para as definições das inteligências. Dr. Gardner considera o conjunto desses critérios originais e a mais importante característica da teoria das Múltiplas Inteligências.

Outro ponto alto da teoria é a descoberta de que o ser humano tem capacidade de desenvolver, durante a sua vida, todas as inteligências do intelecto. Segundo os estudos do Dr. Gardner e sua equipe, todos nascemos com os tipos de inteligências identificados na pesquisa, sendo certo que elas variam de grau e potencialidade, por uma razão de ordem natural, em cada um de nós. Porém, estão ali, latentes! São os afetos trocados no transcorrer da existência e os diversos estímulos recebidos ou, ao contrário, a carência desses elementos, que determinarão o nível de aproveitamento e desenvolvimento dessas inteligências.

Ou seja, são as experiências afetivas e os estímulos externos recebidos pela pessoa que influenciarão para que elas elevem suas inteligências a patamares de excelência. Da mesma forma, a falta de relações interpessoais de qualidade, a ausência de estímulos propulsores ou a ocorrência, frequente ou não, de vivências ou situações opressoras farão com que suas inteligências sejam prejudicadas, estagnadas ou, até mesmo, atrofiadas por completo.

Os indivíduos reconhecidos como prodígios são aqueles que já nascem com todas, ou quase todas as inteligências muito desenvolvidas. Seus potenciais biológicos, puros e originais, já são elevadíssimos. Nos outros indivíduos, a grande maioria de nós, as inteligências trabalham juntas para resolver problemas e produzir vários tipos de estados finais culturais, tais como ocupação, entretenimento, sociabilização e assim por diante. Por exemplo, Mozart revelou sua inteligência musical aos três anos, um prodígio.

Portanto, essa teoria preceitua que o propósito da escola deverá ser o de desenvolver e ajudar as pessoas a encontrarem objetivos e passatempos adequados ao seu espectro de inteligências, levando-as, com isso, a se sentirem mais valorizadas e competentes e, em consequência, mais engajadas e inclinadas a servirem à sociedade de uma maneira construtiva.

A teoria das “MI” (Múltiplas Inteligências), como veio a ser chamada, conduziu à noção de uma escola centrada no indivíduo, voltada para um entendimento e desenvolvimento ótimo do perfil cognitivo de cada aluno.

A chave dessa nova escola proposta pelo Dr. Gardner é a suposição de que nem todos aprendem da mesma maneira, bem como de que nos dias de hoje é impossível aprender tudo que tem para ser aprendido. Essa nova escola centrada no indivíduo deve ser rica na avaliação das capacidades e tendências individuais.

Alunos com diferentes perfis de inteligência aprendem de diferentes formas, as escolas precisarão adequar os indivíduos não apenas às áreas curriculares, mas também aos métodos particulares de ensinar esses assuntos.

Múltiplas inteligências - Inteligência intrapessoal


“As pessoas tem medo do que há dentro delas, mas é o único lugar que vão encontrar o que precisam” – Pensamento Budista

Pode ser definida como o conhecimento que uma pessoa tem sobre seus aspectos internos, sentimentos e emoções e, ainda, como ela, por meio desse conhecimento, processa e orienta seu comportamento para melhor aproveitar suas experiências de vida.

Pessoas com inteligência intrapessoal desenvolvida conhecem o modelo efetivo de si mesmas e se esforçam diuturnamente para alcançá-lo. Assim, trabalham permanentemente para o autoconhecimento, buscando sempre evoluir. Por outro lado, desenvolvem reflexões sobre seus modelos mentais e criam formas de corrigirem os efeitos negativos desses modelos.

Outro aspecto que deve ser relatado é que as pessoas que desenvolvem a inteligência intrapessoal vencem sua voz de autocensura (VDA) e acreditam na força da intuição.

Todavia, como essa inteligência é interna e individual, para que seja percebida pelo seu observador é necessário que ela se apoie em outras inteligências mais evidentes, tais como a linguagem, a música e outras formas de expressão.

Independentemente da área de atuação, estimular a inteligência intrapessoal é fundamental para todos os indivíduos. Isso porque ela, uma vez combinada com qualquer outra inteligência, potencializa o desenvolvimento das demais inteligências. Pessoas que trabalham para aprimorar sua inteligência intrapessoal, elevam seu autoconhecimento, seu controle emocional e sua autoestima e, com isso, fazem com que as demais inteligências que possuem sejam melhor conhecidas e aproveitadas.

Múltiplas inteligências – inteligência intrapessoal “Case”


“Na Plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.” - Goethe

Ana nasceu em uma família metade católica e metade espírita. Passou a vida observando ambas, sem nenhuma conexão.

Foi uma criança e uma adolescente extrovertida e comunicativa, mas poucas pessoas conseguiram conhecê-la com profundidade. Em seus relatos ela conta que sempre teve uma consciência elevadíssima sobre algo maior, superior, existencial, mesmo não tendo nenhuma religião.

Sua personalidade agitada refletia parte da agitação em seu interior. Era difícil de compreender o que a escola tentava ensiná-la, como se soubesse que a grande parte do conteúdo seria inútil para seu futuro. Passou a vida em conflito entre seu alto potencial e sua incapacidade de conviver com o ensino formal.

Ela lembra que as horas sentadas olhando os professores escrevendo no quadro negro pareciam uma sessão de tortura. Simplesmente não conseguia conexão com a metodologia das escolas de sua época. Contra todos e tudo, foi se arrastando até se formar em direito, profissão que ela não iria exercer nenhum dia de sua vida.

Hoje, mais madura, ela faz uma reflexão da decisão que tomou com relação ao seu curso superior. No conflito interno de não saber o que queria, sentindo a pressão do tempo, da família, amigos e escola, decidiu escolher seu curso por eliminação.

Sempre ouviu de seus pais que a formação em Direito seria útil aos negócios da família. E por não fazer a menor ideia do que queria, resolveu seguir os conselhos de seus pais e ingressou na faculdade de Direito.

Desde criança, em suas mais remotas lembranças, revelava uma capacidade extraordinária de perceber sentimentos nas pessoas e de ouvir uma voz interna quando tinha que tomar uma decisão.

Mesmo desconhecendo o que significava, na grande maioria das vezes, ela seguiu o que essa voz sugeriu. Relata que esta voz gritava por atenção quando escolheu seu curso superior, no fundo da alma sabia que estava tomando uma decisão equivocada, mas não foi possível lidar com as pressões externas.

Logo no primeiro ano da faculdade Ana assumiu um posto chave na empresa da família, e aquela voz interna foi se calando e a vida tomou as rédeas do seu destino.

A menina feliz, extrovertida, alegre, se tornou uma adulta séria, com semblante tenso, calada e reflexiva. Em outras palavras, perdeu o seu brilho.

Nesta toada definida pela vida, ela não viu o tempo passar, até que aos quarenta (40) anos, uma doença séria a fez ficar quase um ano parada. Chegou a ficar desenganada por um longo período.

Neste tempo na cama, sua vida passava como um filme em sua cabeça, e a lembrança de sua velha amiga interna, aquela voz tão sábia, voltava gradativamente. Era como se ela tivesse feito as pazes consigo mesma.

Aproveitou o tempo de resguardo para ler filosofia, teologia e história. Sentia aflorar uma mudança no seu interior e decidiu não lutar contra seus sentimentos.

Quando se recuperou, Ana procurou entender e dominar a meditação, mudar seus hábitos buscando uma vida mais saudável, inseriu na agenda tempo para: lazer; ginástica; leitura e família.

Por fim ela encontrou o Budismo, largou os negócios da família e seguiu a carreira de jornalismo, profissão que exerce até hoje. Relata que o tempo que esteve parada sentia algo muito forte, difícil de explicar e fácil de entender.

Percebeu que a doença veio como uma aliada, um reforço a sua voz interior, sua intuição. Em um acaso, um amigo lhe presenteou com um livro do Dr. Howard Gardner. Afirma que poucas coisas fizeram tanto sentido como a teoria das “Múltiplas Inteligências”.

Estava certa que precisava se dedicar ao autoconhecimento, investir em sua inteligência intrapessoal, e mesmo ainda não reconhecida como a nona inteligência, sabia que o que estava sentindo era sua inteligência existencial. Ela desenvolveu uma capacidade extraordinária de trabalhar com a sua intuição.

Em suas palavras conta: “Quando li pela primeira vez a teoria das “Múltiplas Inteligências” entendi minha vida em minutos. Consegui entender o sentimento que sempre permeou meus pensamentos. Mesmo ciente do meu grande potencial, fui uma aluna e uma profissional medíocre”.

Deixei a vida me levar, trabalho, casamento, filhos e família, tudo foi acontecendo naturalmente sem reflexão, quando percebi, não tinha um propósito de vida, no desenrolar de minha história abri mão de valores e princípios muito importantes para mim”.

Seu maior conflito interno, nunca externado a ninguém, foi que passou sua vida inteira ouvindo as pessoas falando que ela era prodígio e que seu sucesso já estava escrito nas estrelas. Cada ano que passava e as previsões não se concretizavam, ela se sentia mais confusa e mais angustiada e, por isso acredita que adoeceu de tristeza.

Múltiplas inteligências - Inteligência interpessoal


“A pessoa dotada de força e magnetismo atrai o espírito de outras inspiradas a participar – a interação dessas pessoas abre novos horizontes do espírito.” - Daisaku Ikeda

A inteligência interpessoal refere-se à capacidade de perceber sentimentos, temperamentos, motivações e intenções de outras pessoas, mesmo que elas não queiram deixar transparecer esses sentimentos.

Na pré-história os homens dependiam uns dos outros para caçar, perseguir e matar animais de grande porte. Essa atividade exigia participação e cooperação de grande número de pessoas. A coesão, liderança, organização e solidariedade no grupo acontecia naturalmente e era decorrente da Inteligência Interpessoal que possuíam.

No mundo globalizado, essa inteligência também se faz necessária na vida das pessoas, pois cada vez mais se é exigida a convivência com pessoas das mais diversas identidades culturais, religiosas, políticas e sociais.

O seu elemento principal é ter o domínio de perceber e distinguir os estados emocionais das outras pessoas pelo tom de suas vozes e pelas suas expressões corporais ou faciais. Uma pessoa com inteligência interpessoal bem desenvolvida consegue harmonizar sentimentos em lugar de gerir conflitos.

Múltiplas inteligências - Inteligência interpessoal "Case"


"As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas nem tocadas, mas o coração as sente". - Hellen Keller

Anne é praticamente cega e por isso não frequentou assiduamente a escola. Mesmo assim, se ofereceu para ajudar os pais de Hellen, uma menina de 7 anos cega e surda, que estava isolada do mundo, pois nenhum profissional e nem mesmo sua família conseguia vencer sua rebeldia.

O primeiro contato parecia um filme de terror. Hellen decidiu que iria comer com as mãos no jantar oferecido a Anne e começou a jogar comida no chão.

Anne, intuitivamente, pediu que todos se retirassem e ficou sozinha com Hellen. O jantar virou uma batalha: de um lado Hellen, que insistia em comer com a mão, de outro lado Anne, que não permitia.

Hellen, em uma atitude extrema, deitou no chão, agarrou-se na cadeira de Anne e começou a berrar. Anne continuou a jantar como se Hellen não existisse.

Quando percebeu que a família toda havia saído, Hellen ficou desconcertada, sentou e comeu. Ainda com alguma luta entre comer com a mão ou com a colher, acabou cedendo.

Anne, inicialmente, escreveu à família: “Meu maior desafio será encontrar uma forma de discipliná-la sem subjugar seu espírito”. Decidiu morar com Hellen em um chalé da família e, duas semanas mais tarde, ela escreveu aos pais um milagre: “Aquela criaturinha selvagem se tornou uma criança dócil”.

Acredita-se que o segredo do sucesso de Anne foi entender a pessoa, o ser humano de Hellen. Muitas pessoas nascem com um talento natural para desenvolver sua inteligência interpessoal. Grandes líderes, sem nenhuma instrução formal, conseguem mobilizar multidões.

Nesse caso, vimos uma soma de inteligências trabalhando na solução de um problema. Anne, mesmo sem estudo, intuitivamente, soube o que fazer e como fazer, demonstrando sua inteligência intrapessoal.

A capacidade de se comunicar com Hellen, coisa que nem mesmo grandes profissionais conseguiram, mostrou que possuía uma inteligência linguística desenvolvida.

Por fim, o respeito como tratou Hellen mostrou sua forte inteligência interpessoal, capacidade de perceber distinções e sentimentos em outra pessoa, mesmo quando ela tenta escondê-los.

Hellen Keller estreou na literatura em 1902, publicando sua autobiografia “A História de Minha Vida”. Ela seguiu a carreira de jornalista e em 1904 graduou-se bacharel em filosofia.

Ao longo da vida foi agraciada com títulos e diplomas honorários de diversas instituições, como a Universidade de Harvard, além de universidades da Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Foi, ainda, membro honorário de várias sociedades científicas e organizações filantrópicas nos cinco continentes.

Essa inteligência interpessoal aparece muito fortemente em líderes religiosos e políticos, professores, terapeutas e pais. A história de Anne e Hellen demonstra que a inteligência intrapessoal não depende da linguagem.

Múltiplas inteligências - Inteligência lógica-matemática


“O pensamento lógico pode levar você de A a B, mas a imaginação te leva a qualquer parte do Universo. ” – Einstein

Essa é a inteligência mais valorizada no Ocidente, juntamente com a inteligência linguística. Vivem em um pedestal, nos holofotes da teoria do quociente de inteligência (QI). Ela se refere à capacidade de desenvolver raciocínios lógicos, resolver questões que envolvam a manipulação de números, equações ou resolver problemas pelo raciocínio indutivo ou dedutivo.

O seu desenvolvimento facilita uma visão mais sistêmica da vida. Por meio dela, pessoas conseguem enxergar as diversas conexões de uma situação complexa e desenvolvem uma forte noção de regras que envolvam causalidade, tempo e espaço.

Múltiplas inteligências – Inteligência lógico-matemática “case”


“É urgente eliminarmos da mente humana a ingênua suposição de que seja possível sairmos da grave crise em que estamos mergulhados, usando o mesmo pensamento que a produziu.” - Einstein

As pessoas tendem a considerar essa inteligência apenas como uma supercapacidade de resolver cálculos ou dominar a física e a matemática.

Todavia, a inteligência lógico-matemática é a capacidade de desenvolver qualquer pensamento lógico e estruturar uma visão sistêmica de um fato, como no exemplo a seguir.

A Prêmio Nobel de Medicina, Barbara McClintock fez um relato interessante que demonstra bem sua inteligência lógico-matemática e seus poderes de dedução e observação, muitas vezes denominados como pensamento científico.

Um dia, no seu trabalho de campo em um milharal, ela e sua equipe desenvolviam um estudo sobre a esterilidade do milho quando se depararam com um fato intrigante. Todas as pesquisas apontavam que a média era de 50% de milhos estéreis, mas seus assistentes no milharal estavam registrando uma média de 25% a 30% de esterilidade. Essa discrepância a deixou perturbada.

Barbara deixou o milharal e voltou ao laboratório. Lá, ficou sentada por meia hora, apenas pensando. Subitamente, ela deu um pulo e saiu gritando em direção ao milharal chamando todos os seus assistentes. Aos gritos de “eureca”, ela pegou um pedaço de saco de papelão e rabiscou a tese que acabara de conceber, mesmo sem nenhuma evidência de laboratório que elucidasse sua teoria.

Depois do ocorrido, voltaram ao laboratório e Barbara desenvolveu um passo-a-passo científico da sua teoria. Para surpresa de todos, depois de repetidos os testes, chegaram exatamente ao mesmo resultado a que Barbara havia chegado com os cálculos no saco de papel.

Esse exemplo ilustra dois pontos relevantes da inteligência lógico-matemática, quais sejam: a) em um indivíduo talentoso o processo de resolução de problemas é rápido e, b) o cientista bem-sucedido consegue lidar com um número muito grande de variáveis porque possui visão sistêmica acurada, conseguindo elaborar diversas hipóteses antes mesmo de testá-las para comprovar ou não sua veracidade.

Percebe-se, também, nesse caso, que a inteligência se manifestou sem uso da linguagem, apenas no pensamento. Foi no silêncio que Barbara deduziu as razões de sua descoberta.

Quando pessoas desenvolvem essa capacidade de pensamento juntamente com a linguagem conseguem altos resultados nos testes de QI.

Múltiplas inteligências - inteligência linguística


“Mude de opinião, mantenha seus princípios. Troque suas folhas, mantenha suas raízes.” Victor Hugo

As pessoas que possuem a inteligência linguística conseguem se expressar com precisão por meio da escrita, da fala ou do corpo e desenvolvem grande capacidade de influenciar outras pessoas.

Essa é mais uma inteligência muito valorizada no mundo ocidental. Juntamente com a inteligência lógico-matemática, leva as pessoas “testadas” a bons resultados no SAT ou nos testes de Binet.

Não existe dúvida de que a inteligência linguística associada a outras traz um poder muito elevado. Pessoas que possuem um raciocínio lógico muito acurado, somado à capacidade de os revelar brilhantemente, se destacam, rapidamente, em um grupo.

Quando uma pessoa desenvolve sua inteligência linguística e ao mesmo tempo trabalha com sua inteligência interpessoal e lógico-matemática, adquire poder incomum de liderança e capacidade de influenciar outras pessoas.

Múltiplas inteligências - Inteligência espacial/visual


“Em todas as coisas, o sucesso depende de preparação prévia.” – Confúcio

Há pessoas com um alto grau de sensibilidade sobre a visualização dos objetos e da natureza. Ao enxergar as coisas nas suas diversas formas, cores, linhas e disposições no espaço, elaboram, imediatamente, em sua mente, cenários com harmonia e arte.

Essa é mais uma inteligência ligada à visão sistêmica. Existe nela forte relação de causa e efeito; percepção acurada ao trabalhar espaços, definir layouts e operar máquinas; bem como grande capacidade para construir cenários, mesmo na ausência dos elementos presentes.

A capacidade dos vikings de se orientar pelas estrelas denota a inteligência espacial daquele povo. A solução de problemas espaciais é necessária para a navegação e o uso de mapas. Assim como a percepção de objetos por diversos ângulos diferentes. É fundamental para se jogar xadrez.

Múltiplas inteligências - Inteligência musical


“Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos”. - Cora Coralina

Pessoas sensíveis a sons, melodias, ritmos, timbres, afinação e tons têm facilidade em cantar ou tocar um ou mais instrumentos. Estabelecem forte conexão com a música desenvolvendo a capacidade de perceber emoções nas letras e melodias. Normalmente, crianças com predeterminação à inteligência musical revelam muito cedo sua paixão pela música.

Pais e professores atentos à teoria das “múltiplas inteligências” descobrem grandes talentos, como Yehudi, uma criança que aos 3 anos reagiu de forma surpreendente ao som do violino e, na primeira vez que ouviu o instrumento, pediu-o como presente de aniversário. Com 10 anos, ele se tornou um músico internacional.

A inteligência musical desse menino se revelou antes mesmo de ele ter tido contato com o instrumento. Foi a percepção de seus pais à sua reação ao violino que fez toda a diferença em sua vida.

Múltiplas inteligências - Inteligência cinestésica-corporal


“Não é o ritmo nem os passos que fazem a dança. Mas a paixão que vai na alma de quem dança”. - Augusto Branco

Pessoas que conseguem usar o corpo para expressar um sentimento, uma representação ou realizar com precisão movimentos relacionados à prática esportiva mostram forte habilidade para trabalhar com as mãos, tais como os artesãos ou os cirurgiões. Possuem coordenação, equilíbrio e destreza.

Nos estudos das “múltiplas inteligências” na China, registrou-se um “case” surpreendente. Uma menina era considerada retardada pela escola, em razão da sua dificuldade de acompanhar o ensino formal, totalmente voltado para os testes.

Lentamente, ela foi tomando aversão à escola. Vivia “doente” e fazia de tudo para faltar às aulas, até que certo dia o corpo docente decidiu expulsá-la com diagnóstico de elevado déficit de atenção.

Por sorte, seu pai havia assistido a uma palestra sobre as “múltiplas inteligências” e buscou entender a teoria. Assim, ao brincar com a filha, percebeu que ela desenvolvia bem a lógica de regras esportivas.

Ao receber a notícia da escola, mesmo abalado profundamente, o pai decidiu que lutaria para provar o contrário. Assim, começou uma longa jornada pelo mundo do esporte, até que um dia, ao passear com a filha em um campo de golfe, notou que a menina ficou paralisada, em completo estado de “fluxo” – quando uma pessoa está envolvida com uma atividade ao ponto de perder completamente a noção do tempo.

A emoção sentida pelo pai foi percebida pelo seu relato ao descobrir a genialidade da filha para aquele esporte. Ela veio a se tornar uma das maiores jogadoras de golfe do seu país e, no decorrer de seus treinamentos, a menina, naturalmente, despertou interesse pela matemática e pela física ao perceber a utilidade das matérias na compreensão do fenômeno da resistência do ar, bem como na lógica dos “porquês” para a existência dos diferentes tipos de tacos.

Esse exemplo serve de alerta aos pais e reforça algumas perguntas, tais como: a universidade é o único caminho para o sucesso de uma pessoa? Ela é garantia de sucesso? O que é sucesso? É o fim ou a jornada? Qual sua relação com a felicidade?

Múltiplas inteligências - Inteligência naturalista


“A natureza não faz nada em vão”. - Aristóteles

Pessoas que percebem as conexões entre o homem e a natureza conseguem enxergar a vida humana como parte integrante de um todo. Têm forte ligação com plantas e/ou animais.

Em uma escola de ensino fundamental da Dinamarca havia um garoto de 12 anos que vivia isolado em seu mundo. Ele não se entrosava com ninguém e, normalmente, era motivo de bullying por parte de outros meninos de sua turma.

Sua professora foi uma dos milhares que haviam recebido, no país, treinamento na teoria das “múltiplas inteligências” com a introdução da nova política educacional voltada para o aluno. Não para testes.

Certa de que desenvolver cada um de seus alunos passava pela sua capacidade de entender os pontos fortes e fracos de todos, sem exceção, ela sabia que esse menino não desenvolvera suas inteligências por falta de estímulo.

Passou, então, a acompanhá-lo nos recreios sem que ele percebesse. Descobriu que o garoto passava o tempo todo nos jardins, entrando e saindo de moitas, às vezes subindo em árvores e sempre pegando insetos.

Um dia, ao abordá-lo, perguntou-lhe por que sempre estava coletando insetos. Ele explicou que os colecionava e, para surpresa da professora, fazia isso de forma profissional. Tudo começou quando seus pais compraram três besouros, atendendo a um pedido dele, que nunca mais parou de pesquisar insetos.

A professora decidiu, portanto, introduzir insetos nas aulas de ciências e perguntou-lhe se não gostaria de ajudá-la na elaboração das aulas.

O garoto se revelou. Assumiu o comando, foi para frente da sala e explicou tudo que sabia. Trouxe parte da sua coleção e passou a convidar os colegas para o ajudarem na busca de insetos no recreio.

Hoje ele é um líder em sua turma, passou a ser admirado e, no final daquele ano, no trabalho de tema livre, oito alunos escolheram insetos como tema. Esse exemplo é muito rico para mostrar que, por meio de uma inteligência, podemos atingir outras.

Esse garoto tinha uma excelente inteligência naturalista e, no intuito de externá-la, desenvolveu suas inteligências lógico-matemática, linguística, intrapessoal e, principalmente, interpessoal.

Múltiplas inteligências - Inteligência existencial


“A única revolução possível é dentro de nós.” Gandhi

Há pessoas que, mesmo sem uma religião, conseguem sentir a presença de algo maior. Vale ressaltar que, em alguns livros, encontramos o termo “inteligência espiritual”. Na verdade, o correto é “existencial”. Essa inteligência ainda não foi oficializada pelo Dr. Howard Gardner, apesar de já adotada em alguns países, como a China.

Foi exatamente o termo “espiritual” que gerou polêmica ao se tornar candidato à nona inteligência. Essa inteligência não está relacionada a espírito, alma ou religião, e sim à percepção da existência de algo superior. Há registros de pessoas sem fé ou religião que manifestaram a percepção de algo superior ao homem, à natureza e aos animais.

Vejam o que disse um dos pioneiros da teoria na China, referindo-se à inteligência existencial: “Para resumir, Howard Gardner ainda não confirmou a existência da inteligência existencial, mas acredito que nosso conhecimento, nossa intuição e nossos insights sobre a vida cotidiana, sobre a natureza, a sociedade e a filosofia, e sobre as obras de arte confirmam essa plausibilidade”.

(Howard 76)

Múltiplas Inteligências – China - Base curricular


crédito: Seamartini Graphics / Shutterstock.com

"Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida". Confúcio

Muitos países da Europa e da Ásia passaram por reformas educacionais na década de noventa, quando eclodiram questionamentos sobre os conceitos de educação voltados para testes. Vários países começaram a buscar uma doutrina para humanizar a educação e tirá-la das cordas da unilateralidade.

Um dos primeiros países em que a teoria das “múltiplas inteligências” se expandiu foi na China, onde ela encontrou sustentação nos conceitos milenares daquela cultura.

Em audiência concedida pela Doutora Jie-Qi-Chen à nossa equipe, no conceituadíssimo Erikson Institute, em Chicago, ela nos contou que essa teoria, concebida na Harvard University, conforme já dito no início deste texto, é muito valorizada pelos chineses que admiram sobremaneira o ensino superior norte-americano, considerando-o o melhor do mundo, o qual tem como carro chefe a Harvard University, com sede em Cambridge.

A teoria das “múltiplas inteligências” teve uma influência arrebatadora na reforma educacional chinesa. Na verdade, ela tornou-se mais popular e teve maior impacto na China do que nos Estados Unidos, onde nasceu.

Todavia, é importante ressaltar que as implementações bem-sucedidas das “múltiplas inteligências” naquele país oriental não são copias do uso que se fez da teoria nos Estados Unidos.

Tanto o doutor Gardner quanto a doutora Jie-Qi-Chen foram incisivos ao explicar que não existe um modo específico que oriente a implantação das Múltiplas Inteligências em uma sociedade, uma vez que a própria definição de inteligência vincula a cultura e, sendo assim, é preciso que cada país desenvolva a própria metodologia. Os chineses, por exemplo, tem a peculiaridade de entender a inteligência como um traço da família e, portanto, segundo acreditam, ela deve ser desenvolvida em sintonia com os diversos ambientes familiares.

Acolhendo a perspectiva válida e autêntica das “múltiplas inteligências” sobre a natureza humana e as habilidades intelectuais humanas, o povo chinês assimilou a teoria às tradições, mantendo os valores de sua cultura. O processo de aculturação, em si, é um exemplo do valor chinês em relação à harmonia –– pré-requisito para a implementação— bem sucedida das “Múltiplas Inteligências” na China.

A teoria está muito difundida no país, onde milhares de professores, diretores escolares, pesquisadores e psicólogos da cognição estão criando uma massa crítica e permanente sobre o funcionamento das múltiplas inteligências. Há várias ações como seminários, palestras, cursos e fóruns com o objetivo de trocar experiências. O sucesso abrange todo o universo acadêmico, do ensino infantil ao superior, escolas públicas e particulares, zona urbana e rural.

Muitas escolas montaram uma equipe completa treinada com base nas “múltiplas inteligências”, envolvendo diretores, supervisores, professores e, em alguns casos, até mesmo os funcionários operacionais.

O que é curioso sobre o sucesso da teoria na China é o fato de que ela se trata de uma filosofia ocidental, desenvolvida nos EUA, um país culturalmente antagônico ao modelo chinês. Porém, o que aconteceu é que além de a teoria ir ao encontro da filosofia chinesa, a China procurava uma solução para o desenvolvimento de uma educação voltada ao indivíduo, e, nesse ponto, a teoria americana supriu as suas expectativas, fazendo com que a sociedade e o poder público, que compartilhavam o mesmo propósito, adotassem com empenho essa metodologia de ensino e aprendizagem.

Foi a política de portas abertas que viabilizou a implantação da teoria das “múltiplas inteligências” na China. Essa política tinha como propósito o rápido crescimento econômico do país e, para isso, precisava de mão de obra qualificada, a qual o sistema educacional chinês, voltado para testes, não estava preparado.

Com efeito, o mercado passou a demandar, de forma contínua e crescente, pessoas criativas, que não se restringissem a ter conhecimento técnico e, ao contrário, que possuíssem conhecimentos especializados.

O Ministério da Educação tomou, então, uma série de medidas, estabelecendo que a educação chinesa deveria atentar para a nova realidade do mundo moderno, respeitando as individualidades dos alunos e, assim, o governo chinês percebeu que a teoria das Múltiplas Inteligências atendia a todos os conceitos da nova política educacional da China.

Outro fator importante que levou ao sucesso da implementação dessa teoria na China, foi o alinhamento da teoria das “múltiplas inteligências” com as quatro principais linhas filosóficas chinesas – confucionismo, taoísmo, budismo e legalismo. O que acontece é que tanto a teoria quanto as linhas filosóficas têm, em sua essência, a valorização do pluralismo, que, por sua vez, exerce grande influência na cultura popular chinesa. Isso é perceptível no fato de que muitos ditados populares chineses albergam pontos vitais da teoria das “múltiplas inteligências”.

A China sempre foi um país aberto a ideias estrangeiras. Em sua história de 5.000 anos, assimilou à sua cultura o budismo, o marxismo e o próprio cristianismo, comprovando a capacidade de adaptar-se a novas tendências sem perder sua essência.

Com a teoria das “múltiplas inteligências” não foi diferente, ou seja, não foi uma transferência empacotada dos EUA, uma vez que a absorção foi resultado de um processo de aculturação. Duas questões importantes da teoria foram a base da aceitação: distintas concepções de inteligências e distintos valores orientadores do processo educativo.

Os pais estão se familiarizando cada dia mais com o conceito das “múltiplas inteligências”, passando a observar o potencial de seus filhos sob outro contexto. Perceberam um novo papel da família no processo de desenvolvimento cognitivo das crianças. O acompanhamento em casa tem-se mostrado um forte complemento à observação dos professores.

Múltiplas inteligências – No mundo


“O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que só observam e deixam o mal acontecer". - Einstein

A teoria já se encontra em fase avançada de sua implantação no Japão. Disse Howard Gardner, em sua apresentação em Tóquio em 2006, referindo-se à teoria das Múltiplas Inteligências: “O mundo de amanhã pertence aos que conseguirem entender e também ajudarem outros a entender”. (Kamijo, 2006).

Muitas escolas já vêm implantando a teoria, inclusive as escolas internacionais, onde o idioma oficial é o inglês, que têm como público-alvo jovens de outros países.

Na Coreia do Sul, a teoria foi introduzida há quase 20 anos e se encontra sólida e crescente. No país, a teoria tem sido aplicada e desenvolvida em todos os níveis educacionais, desde o infantil até o universitário.

Antes da introdução da teoria das “múltiplas inteligências”, as escolas sul-coreanas eram burocraticamente sistematizadas e uniformes. Coreano, inglês e matemática eram o foco do currículo, e as provas normativas, a forma predominante de avaliação. Os estudantes eram classificados segundo suas inteligências linguística e lógico-matemática. Com exceção de alguns, que obtinham os resultados mais elevados nas provas, a maioria era classificada como fracassada.

Nesse contexto intelectual, os educadores das “múltiplas inteligências” passaram a afirmar que cada aluno tem um perfil diferenciado de inteligências. “A teoria inspirou a motivação dos alunos para aprender e restaurou sua confiança na instituição. Uma motivação mais forte gerou níveis de desempenho mais elevados.” (Howard 122)

A teoria das “múltiplas inteligências” ajudou a encaminhar o debate educacional sul-coreano que buscava direcionar o ensino ao aluno e não ao conteúdo, bem como influenciou fortemente o currículo nacional que foi elaborado segundo as suas pregações. Isso fortaleceu a política nacional de educação, ajudando professores a responder a questões culturais e sociais.

Existem, ainda, iniciativas bem avançadas nas Filipinas, em Cingapura e na Austrália.

Na Europa, a teoria foi implantada na Noruega, na Dinamarca, na Romênia, na Inglaterra e na Irlanda. Tais implantações encontram-se em diferentes estágios, mas o importante é que em todos eles existe um vetor de crescimento. Em destaque temos a Noruega e a Irlanda, onde a teoria foi adotada como política educacional.

Ressalta-se, por fim, uma interessante iniciativa, totalmente inspirada na teoria das “múltiplas inteligências”. Trata-se do Explorama, um museu de ciências do mundo, localizado no sudoeste da Dinamarca.

Neste trabalho, porém, foi dada ênfase à China, em virtude da dimensão do trabalho realizado naquele país, que pode servir de inspiração para o desenvolvimento das “múltiplas inteligências” no Brasil, mostrando claramente que é possível vencer a inércia da educação, mesmo em um país continental.

É importante ressaltar, todavia, que mesmo considerando que China e Brasil são países continentais, as diferenças culturais existentes entre os dois países faz com que tenhamos a consciência de que no Brasil, deveremos encontrar uma forma de aplicar a teoria que se encaixe ao nosso estilo de vida, à nossa forma de ver o mundo e de nos relacionar com a sociedade. Assim, não é recomendável que usemos a China como referência exclusiva para a implementação da teoria das “múltiplas inteligências” nas nossas escolas.

Múltipla inteligências - Conclusão


“Tente ser não uma pessoa de sucesso, mas uma pessoa de valor.” - Einstein

Quando se iniciou o desenho das primeiras linhas do projeto “MIDE” (Múltiplas Inteligências Desenvolvimento e Educação), a pergunta que norteou os trabalhos foi: “Por que tantas pessoas entre 35 a 50 anos estão infelizes profissionalmente?”.

Depois de algumas pesquisas, percebeu-se que, em geral, a raiz do problema estava nas escolhas feitas no terceiro e quarto setênio da vida, ou seja, entre 14 e 28 anos. Nessa fase, foram tomadas as decisões que tiveram um impacto, se não definitivo, pelo menos muito grande na vida das pessoas, porque foi nesse período que elas escolheram suas profissões, casaram-se, saíram de casa e entraram no mercado de trabalho.

Pode-se dizer que a sensação, no início do estudo, foi a de que se tentava explicar o óbvio. Porém, surgia então, a segunda pergunta: “Como estamos preparando os jovens para decidirem esses rumos tão críticos?”

Concluiu-se que não estamos fazendo nada. Não é necessário aprofundar-se na questão para entender isso. Os números falam por si e, para tanto, não é preciso grandes pesquisas.

A equipe teve acesso a uma análise muito bem feita sobre o INEP/2014, realizada pela Associação Brasileira de Estágios (ABRES). Nessa análise, com o intuito de facilitar o entendimento, usou-se como referência uma escola de ensino médio com cerca de mil alunos, facilmente encontrada em qualquer estado brasileiro.

Desse montante, segundo o estudo, apenas 220 (duzentos e vinte) chegarão à universidade. Deles, 140 (cento e quarenta) abandonarão os estudos, ou por terem escolhido mal o curso superior ou por dificuldades financeiras. Por fim, 80 (oitenta) irão formar-se.

A preocupação da ABRES é muito pertinente, pois, em média, só existem vagas de estágio para 60 (sessenta) alunos. Ou seja, mesmo com esse funil alarmante, nosso mercado não absorve todos os estudantes universitários.

Considerando, ainda, o alto índice de profissionais pesquisados, entre 35 a 50 anos, que reportaram ter escolhido mal o curso superior, o cenário para responder a segunda pergunta, se torna ainda mais desafiador.

Assim, a equipe escolheu a Teoria das Múltiplas Escolhas como eixo central do projeto “MIDE” (Múltiplas Inteligências Desenvolvimento e Educação), explicado em detalhes na página “Projeto – História” deste blog.

Foram quase dois anos dedicados a viagens para a Europa, a Ásia e os Estados Unidos, bem como pesquisas e visitas a escolas, empresas e universidades, tendo como resultado a coleta de material muito rico e abundante que, nos leva a acreditar que, mesmo sendo um desafio hercúleo, a aplicação das “múltiplas inteligências” poderá vir a ser uma luz no fim do túnel para a educação no Brasil.

Nosso propósito maior é promover iniciativas que levem a aplicação da Teoria das Múltiplas Inteligências no Brasil, em toda a extensão do ensino, bem como em todas as empresas, criando uma comunidade que irá gerar, assim como na China, profissionais realizados e qualificados. Buscar-se-á uma aculturação da teoria em nosso país. Para isso, não serão medidos esforços em promover palestras, workshops, fóruns e congressos, para que possamos passar experiências uns aos outros.

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