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Múltiplas Inteligências - China e Coréia do Sul


Múltiplas inteligências – Panorama Global


"Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas". - Confúcio

No primeiro artigo, abordei a teoria das múltiplas inteligências: como e onde nasceu; o que a teoria defende e um breve relato de sua implantação na China.

Neste segundo artigo, falarei sobre as múltiplas inteligências na prática, exemplos de onde ela foi implementada com sucesso, alguns “cases” importantes e o seu impacto em algumas culturas.

Quando dr. Gardner, após 4 anos de pesquisa em Harvard, lançou sua teoria, em 1983, acreditava numa grande repercussão entre os psicólogos. Porém, ela teve grande aceitação entre educadores, pais de alunos e o público em geral.

O primeiro livro sobre a teoria, “Frames of Mind”, não tratava, em nenhum momento, de educação. Nem mesmo aludia às implicações que a teoria poderia exercer à cognição.

Assim sendo, os leitores que se propuseram a adotá-la, viram-se livres para aplicá-la como achassem melhor. Esse fato alimentou um grande debate em torno da teoria.

De modo geral, as pessoas usavam-na para defender seus pontos de vista já existentes. Esse imbróglio em torno da teoria, principalmente no campo da cognição, revela um bom motivo: ansiedade por algo novo que trouxesse luz com a substituição da teoria do QI (quociente de inteligência) elaborada pelo francês Alfred Binet, em 1900.

A primeira vez que dr. Howard Gardner expôs sua teoria publicamente foi em 1986, em uma palestra informal, no aniversário de 350 anos da Harvard University. Naquele momento, o debate sobre a teoria das múltiplas inteligências crescia em todo os EUA.

Dr. Gardner foi convidado a fazer uma palestra na National Association of Independence Schools, organização das escolas particulares ou independentes dos EUA.

Esperava falar para um público de 50 a 60 pessoas. Ao chegar lá, surpreendeu-se com uma multidão que lotava um grande auditório. Havia pessoas inclusive nos corredores laterais. Essa palestra foi um marco no surgimento da teoria. Professores, pais, diretores de escolas e jornalistas disputavam as horas pós-evento para esclarecer dúvidas com o teórico.

Uma questão relevante a ser considerada é o porquê de tantos profissionais da educação e pais de alunos estarem ávidos para conhecer a nova teoria, percebia-se que a educação voltada para testes e ou para conteúdo, minava o sistema educacional americano.

Pela primeira vez em um século, os países asiáticos ameaçavam a hegemonia econômica dos Estados Unidos.

Estudos mostram que a maioria dos países desenvolvidos que adotaram, no ensino fundamental e médio, o sistema educacional voltado para testes visando ao vestibular viram seus sistemas educacionais falir.

Pressionados em busca de uma solução que aliviasse o estresse e a ansiedade crescentes nos adolescentes do mundo todo, decorrência da alta valorização das inteligências lógico-matemática e linguística, os próprios pais começaram a se movimentar.

Pesquisas de campo no Brasil mostraram que, infelizmente, nos meados da década de 80, aquela pauta adotada em diversos países é nossa realidade atual.

As pedagogias voltadas para o indivíduo, ou educação humanística, enfrentam cada dia mais pressão pelo sistema educacional voltado para testes, principalmente os vestibulares.

O estresse, a ansiedade, as doenças do pânico e um elevado índice de suicídios são uma realidade mundial. Países como China, Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Dinamarca, Noruega e Irlanda estão trabalhando desde o início da década de 90 para mudar o sistema educacional.

No Brasil, procuramos conhecer escolas que fugiam da metodologia teste tipo papel e lápis, com o intuito de entender como estavam administrando o conflito entre educação voltada para qualidade e educação voltada para conteúdo.

A maioria das escolas que seguem uma filosofia mais humana, como as Waldorf e as Montessori, em sua maioria, se dedicam às séries iniciais. Alguns casos chegam até o 9º ano do ensino fundamental e muito raramente, em um tímido movimento, chegam ao ensino médio.

Assim como acontece nos EUA, nossas escolas acabam cedendo à pressão do mercado pelo sucesso no vestibular. Importante ressaltar que muitas escolas no Brasil que têm pedagogia humanista nasceram de associação de pais insatisfeitos com as alternativas das escolas atuais.

Desconstruindo Modelos Mentais


"Não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros." - Confúcio

Os primeiros passos da teoria das múltiplas inteligências em escolas não fugiram à regra, nasceram de uma associação de pais e professores.

Antes de falarmos da história da “Key Learning Community”, uma escola de Indianápolis – Estados Unidos é importante ressaltar percepções importantes que colhemos em nossas pesquisas de campo e consequentemente expressar nossa opinião de um caminho viável para a teoria no Brasil.

A teoria das MI poderá ser a grande alavanca na mudança educacional brasileira, tirando-nos do atual sistema falido de educação para testes e criando, gradativamente, um ambiente para a educação e para a qualidade focada no indivíduo.

Um caminho que se revelou de sucesso é investir, inicialmente, nas escolas de base – educação infantil e ensino fundamental I. Quando digo investir é levar a teoria a professores, alunos, funcionários, diretores e pais. Inicialmente, se conseguirmos mudar o modelo mental sobre inteligência, já será um ganho incalculável para a educação brasileira.

É preciso ver nossos professores cientes de que todos alunos, sem exceção, são inteligentes e por isso precisam criar formas diferentes de apresentarem o mesmo conteúdo. As pessoas são singulares, portanto, a forma de ensinar tem de seguir a mesma lógica: formas de ensinar diferentes para pessoas diferentes – tratando os diferentes diferentemente.

Na minha opinião, o sucesso da teoria na China se deu pela perspicácia de envolverem-se pais e professores na missão de identificarem-se as diversas inteligências nos alunos e, ainda, a associação de todas escolas em geral para compartilhar “cases” de sucesso no desenvolvimento da teoria.

Sempre que uma escola adotava a teoria, imediatamente, iniciavam-se treinamentos junto às famílias. As escolas abriram suas portas no turno da noite ou em fins de semana para que as famílias entendessem a teoria. Ao invés de pressionar por mais conteúdo, trabalhavam em conjunto com a escola no desenvolvimento e na avaliação da teoria.

Há pais que vivem a grande angústia de achar que seus filhos não são inteligentes. É grande a dor dos pais ao admitirem tal afirmação.

A teoria das MI é clara: todos nós nascemos com as nove inteligências, mesmo que latentes, algumas com mais predominância do que outras. As pesquisas mostram e a prática confirma: primeiramente investir nas inteligências fortes. Por meio delas desenvolver as fracas. Nunca ao contrário.

Há um modelo Mental ultrapassado e ainda muito arraigado no Brasil: o que define “sucesso”. Uma análise um pouco mais acurada demonstra que o consumismo, a ansiedade e as frustrações têm suas raízes nesse modelo mental.

Chegou a hora de os pais brasileiros começarem a fazer as perguntas corretas em relação ao futuro dos seus filhos.

O que é sucesso?

É um objetivo ou uma meta, a chegada, ou será que deve ser a jornada?

Será que o único caminho para o sucesso é um curso universitário?

Qual conteúdo, de fato, vai garantir, daqui a 10 ou 15 anos, sucesso no século XXI? O que é mais importante: ênfase no conteúdo ou em competências?

Perguntas como essas costumam provocar reflexão sobre a qualidade de vida de nossos filhos.

O modelo mental de que uma faculdade é único caminho para o sucesso induz os pais a impor sobrecarga emocional a seus filhos. Essa é a origem, na minha opinião, do altíssimo volume de jovens em terapia ou mesmo em tratamento para ansiedade.

Qual é o verdadeiro valor para seu filho, o diploma universitário ou uma jornada feliz?

A grande verdade é que pessoas trabalhando no que gostam, seguindo sua mais verdadeira vocação, acabam dando certo de uma forma ou de outra.

Cito, a seguir, dois exemplos vindos da China, país onde a teoria das MI ganhou a maior proporção no mundo.

Uma menina de 12 anos foi expulsa da escola em pleno ensino fundamental. Motivo: não tinha capacidade de aprender. Todavia, a percepção de seu pai sobre o talento dela para esportes tornou-a uma das maiores jogadoras de golfe do país. Talvez a melhor coisa ocorrida na vida dessa jovem tenha sido parar os estudos e dedicar-se a sua verdadeira vocação. Provavelmente, hoje, se tivesse insistido no ensino formal, estaria batendo carimbo em alguma empresa com um salário medíocre.

O mais bem pago escritor e o de maior sucesso em vendas da China parou seus estudos no segundo ano do ensino médio, depois de ser reprovado duas vezes em matemática. Não suportando mais a pressão, parou de estudar e começou a escrever. Como podem ter feito isso frente a um talento como o desse rapaz? Será que os pais ou os professores se atentaram para seu talento ou o modelo mental era o de que inteligentes são somente as pessoas que possuem inteligência lógico-matemática e linguística?

O que mais chama a atenção e nos remete na direção da teoria das MI é o fato de que o rapaz tinha essas duas inteligências. A questão não era o fato de ele ser ou não inteligente, mas, provavelmente, a forma com que o estavam avaliando. Ninguém escreve bem sem lógica e muito menos sem desenvolver sua inteligência linguística.

Por isso, insisto na pergunta: O que é sucesso para você?

Há pessoas resolutas em se reinventar, a maioria delas, depois dos 40 anos. Não estão felizes, apesar de ter conseguido estabilidade financeira. Pessoas tristes de tanta frustração por nunca terem feito o que gostam. Há pais nessa situação que estão induzindo os filhos ao mesmo erro que cometeram, provavelmente, induzidos, à época, pelos seus pais.

O número de pessoas nesta situação é muito grande – donde vale a pena checar a si mesmo. Veja o seu rol de amigos. Quantos se dizem felizes profissionalmente com a vida que escolheram?

A questão não é fazer ou não um curso universitário, mas estudar apenas o lhe faz sentido, o que o realiza.

Precisamos refletir sobre até que ponto o conteúdo que aprendemos na escola foi determinante para nossa vida profissional e, ainda, até que ponto a universidade é o único caminho para o sucesso e felicidade.

Acredito que um curso superior que não reflita a verdadeira vocação revele-se penoso a médio prazo, sendo uma questão de tempo apenas.

Analise até que ponto você acredita nisso ou até que ponto você desenvolveu um modelo mental que o induz a pensar assim.

Você é feliz?

Você diria com toda certeza que é uma pessoa realizada profissionalmente?

O melhor investimento que um pai pode fazer aos seus filhos, futuros profissionais do século XXI, é apoiá-los no desenvolvimento de suas competências.

Independentemente da profissão, esse é um patrimônio sólido.

Você pode não saber que conteúdo seu filho vai precisar, mas das competências abaixo, certamente, ele precisará.

Competências Duráveis:

Competência de ler e criar um contexto de aprendizagem.

Competência de trabalhar em equipe.

Competência de ler, ouvir, escrever e comunicar.

Competência de desenvolver sínteses consistentes (talvez a competência mais importante para um profissional do século XXI).

Competência de pensar sistemicamente.

Competência de trabalhar e harmonizar emoções.

Competência de falar em público.

Competências de fazer abstrações.

Essa teoria das competências duráveis foi desenvolvida pelo dr. Oscar Motomura, CEO da Amana-Key.

Primeira escola baseada nas múltiplas inteligências no mundo


"Aprender sem pensar é tempo perdido." - Confúcio

Em 1987, os Estados Unidos produziram um relatório sobre a educação no país chamado “Uma nação em risco” e o governo americano começou a agir imediatamente.

O relatório mostrava uma decadência histórica no ensino americano e na concepção dos formuladores deveriam aumentar a pressão sobre as escolas no sentido de aumento e uniformidade de conteúdo.

Veja o que disse o dr. Howard Gardner:

"As atuais tendências em educação nos Estados Unidos são preocupantes. À luz da legislação No Child Left Behind* (nenhuma criança pode ser deixada para trás), uma prática crescente no país é usar testes padronizados estaduais para determinar o desempenho geral de cada aluno, cada professor e cada escola. Muitos acreditam e advertem (Gardner, 2006; Popham, 2001; Sacks, 1999) que os testes padronizados mostram apenas uma imagem limitada do desempenho dos estudantes. Ainda assim, a prática da testagem padronizada continua e, na verdade, aumenta. A opressão produzida por essa prática de foco limitado é disseminada. Muitas escolas hoje focalizam o seu currículo para adaptá-lo a essa medida indiscutivelmente inválida da aprendizagem – uma ação que resulta em um dia escolar fatigante e monótono para todos, quando a prática de memorização e repetição determina a rotina."

Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências. Penso, 01/2010.

Se esse texto for plagiado por um brasileiro e publicado hoje, acredito que fará sentido para a maioria absoluta de seus leitores. Temos a vantagem de verificar se a medida de 30 anos atrás deu certo nos EUA, buscando avaliações recentes da educação americana. A verdade é que o cenário continua o mesmo, com um agravante: estresse, ansiedade e inúmeros problemas psíquicos surgiram nos jovens americanos em decorrência da pressão por resultados em exames.

Foi nesse cenário que oito professoras de uma escola pública de Indianápolis, prevendo o aumento da pressão sobre educar para exames, começaram a se movimentar em busca de uma luz de como educar para a qualidade. Depois de uma extensa pesquisa, chegaram à recém-lançada teoria das MI.

Ao saber que dr. Howard Gardner iria realizar uma palestra em uma cidade próxima, 600 km, se dirigiram para ouvi-lo e entender mais sobre a teoria.

O fato em comum entre as oito professoras era o seguinte: alunos excepcionais em sala de aula. Pessoas reveladoras que não conseguiam se sair bem nas provas e, consequentemente, ficavam marginalizados na escola.

Depois de uma longa conversa com o próprio Howard Gardner, as oito professoras voltaram e deram início a uma pesquisa em diversas escolas progressistas, com apoio do dirigente educacional da região.

Após concluírem as diversas pesquisas, decidiram fundar a Key School, primeira escola do mundo com o currículo 100% baseado na teoria das MI.

Inicialmente, abriram as portas oferecendo educação infantil e fundamental I, o correspondente ao nosso 5º ano.

Fizeram um trabalho brilhante, entendendo a responsabilidade de representar a primeira escola do mundo usando as MI.

Treinaram profissionais para aplicar, avaliar e proporcionar condições para o real desenvolvimento de cada uma das inteligências.

Seguindo o conceito da teoria, pela qual todas as inteligências são importantes, deram ênfase para música, artes e dança na mesma proporção em que a deram a matemática e inglês.Outra teoria que a Key School adotou – na minha opinião, importantíssima como suporte na avaliação das potencialidades de cada indivíduo – foi a teoria do fluxo.

A teoria do fluxo foi elaborada por Mihaly Csikzentmihayi, segundo a qual, quando o indivíduo se envolve totalmente em uma atividade, perde a sensação do tempo. Ninguém entra fluxo fazendo algo de que não gosta. Por isso, a teoria auxilia muito na identificação da vocação de uma pessoa.

Os professores da Key School foram treinados para observar em quais atividades cada aluno entrava em fluxo. A escola criou o primeiro centro de avaliação de Fluxo.

Outra ideia desenvolvida pela Key School foi a das aulas de “pod”, que tinham como objetivo também identificar as potencialidades dos alunos. Na Key School, sempre houve um incentivo para um ambiente de cooperação e não de competição. A Key School, depois de três anos, aboliu o boletim com notas e passou a usar o desenvolvimento nas MI como orientação aos pais.

As aulas de “pod” eram dadas todos os dias, no melhor horário para as crianças. Não havia separação por idade, todos os alunos da escola faziam aulas de “pod” juntos. Os mais velhos eram incentivados ajudar os mais novos. Essas aulas eram optativas, cabia ao aluno escolher a disciplina para suas aulas de “pod”, por exemplo saúde do planeta, fantoches, magos da ciência, canções e sinais e voluntários.

Gardner cita: “Os “pods” são projetados para dar aos estudantes a oportunidade de fazer um trabalho de que gostem e que considerem desafiador. Esses esforços podem colocá-los em uma experiência de ‘fluxo’. Os estudantes enfrentam um desafio que é enriquecedor, rigoroso e relevante”. A hora do pod pode ser a melhor hora do dia: os alunos imergem em uma atividade que adoram e, à medida que trabalham, têm a chance de desenvolver suas potencialidades.”

Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências.

Por fim, a Key School envolveu os pais no processo educacional, mostrando como as famílias influenciam no desenvolvimento das inteligências das crianças.

Key School – O que deu errado?


"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina." - Cora Coralina

No decorrer de nossas pesquisas sobre a teoria das MI, sempre nos deparamos com a Key School, e com isso decidimos que era imprescindível conhecê-la. Para nossa surpresa, ela fechará as portas em julho de 2016.

Como assim?

O que deu errado?

Nosso foco fundamental em relação à Key School seria entender o que houve e aprender com os erros cometidos.

Mesmo antes de chegarmos lá, imaginávamos o provável cenário que encontraríamos, que se confirmou após análise. A escola perdeu sua principal mentora. Chegou a um determinado momento que não havia mais unanimidade entre o grupo gestor: discórdias, principalmente, em relação à pressão dos pais.

Na minha opinião, o maior passo em falso dado pela Key School foi ceder à pressão e adotar a teoria nas séries seguintes, principalmente no ensino médio. Foi muito pioneirismo, muito arrojo, considerando o cenário da educação americana, levar a teoria das MI até ao último ano do ensino médio, no início da década 1990.

Não vejo problema em se levar a teoria como conceito aos alunos e professores do ensino médio, usando-a para despertar a importância do autoconhecimento e como ferramenta de suporte, principalmente vocacional.

Trabalhar o ensino médio, em um cenário como o americano ou o brasileiro, deve ser um passo muito bem calculado, pois todas as forças estarão no sentido oposto.

A pressão por resultados em vestibulares aumentava a cada ano, induzindo a escola a fazer concessões e abrir mão de sua essência, o que gerou ruptura no grupo gestor.

Na China, a teoria esta sendo aplicada nos currículos do ensino infantil ao universitário. Houve, todavia, um processo de aculturação longo, modelo em que acreditamos e defendemos para o Brasil.

Do início dos trabalhos até a adoção da teoria como base de orientação do currículo nacional chinês, foram 16 anos de trabalhos intensos. Nesse período, o foco não foi criar escolas com o currículo 100% baseadas nas MI, mas, sim, criar uma massa crítica, trabalhar a aculturação da teoria, desenvolver a teoria junto às famílias, criar um debate nacional em todos os níveis educacionais.

Na China, ainda persiste o vestibular. Porém, todo o sistema educacional chinês está em busca de uma alternativa. Muitas universidades já separaram uma cota para o ingresso sem a dependência de resultados em testes tipo lápis e papel.

As escolas de ensino infantil e fundamental poderiam adotar a teoria e seguir uma linha mista muito próxima à da Key School. Nas demais séries, seria um avanço se conseguíssemos que professores, alunos e pais percebessem os demais talentos dos jovens além das inteligências lógico-matemática e linguística.

Se as escolas incentivassem e divulgassem aos professores, alunos e pais a teoria das MI e do fluxo, e abrissem espaços para que os jovens descobrissem seus talentos, estariam dando um passo extraordinário.

Hoje, apenas 22% dos jovens brasileiros chegam a uma faculdade. Desses, 13% desistirão antes de se formarem, isto é, apenas 8% dos jovens brasileiros do ensino médio formar-se-ão. Números como esses espelham bem o nosso ensino.

Ainda que o foco inicial fosse aumentar o percentual de jovens que entram e terminam seu curso superior, já seria um ganho representativo para o País. Outro fato foi que houve uma caça aos professores mais capacitados da escola. A formação de professores treinados não acompanhava o “turn over”.

Como já foi dito, não creio no modelo de se criar uma “escola ilha” dentro da educação brasileira. O passo a ser dado é propagar a teoria entre pais, professores, diretores pedagógicos e gestores de escolas. Precisamos entender, primeiramente, o contexto brasileiro, ou seja, a teoria precisa passar por uma aculturação. Somente depois de percebermos isso, entenderemos aquilo para que a dra. Jie-Qi-Chen nos alertara: um país jamais deve copiar o outro, porque a teoria está atrelada à cultura do povo; todos os países que negligenciaram nisso sofreram duras penas para implantar a teoria.

Múltiplas inteligências e as escolas da China


"Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas." - Cora Coralina

A teoria desembargou na China logo após sua divulgação, em 1985, levada pelas mãos da dra. Jie-Qi-Chen, aluna de Gardner e parceira do Projeto Zero, escola de educação infantil da Escola de Psicologia da Cognição de Harvard, dirigida pelo dr. Howard Gardner desde 1967.

Chen foi fundadora da precoce Math Collaborative e professora de desenvolvimento infantil no Erikson Institute, com sede em Chicago – IL, fundado pelo renomado psicanalista Erik Erikson, responsável pelo desenvolvimento da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial na Psicologia e um dos teóricos da Psicologia do Desenvolvimento.

O trabalho de Chen se concentra em desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento profissional de professores, avaliação de sala de aula, educação matemática cedo, aplicação da teoria das múltiplas inteligências e intervenção em meio escolar. Começou sua carreira como professora em sala de aula.

Ensinou na pré-escola, no fundamental e em escolas de ensino médio na China e na pré-escola e jardim de infância nos Estados Unidos. Por mais de 20 anos, ela tem contribuído para os esforços de desenvolvimento profissional de professores em Boston e Chicago Public Schools. Ela também tem enriquecido a avaliação e o desenvolvimento de currículos em programas de primeira infância.

Nos últimos 10 anos, a teoria das MI teve uma influência muito grande na reforma educacional da China e se tornou muito mais popular do que no Estados Unidos, onde nasceu. A introdução bem-sucedida da teoria das múltiplas inteligências na China pode ser percebida em todo o território e em todas as séries escolares. A implantação não foi uma transferência direta, passou por uma forte aculturação e a soma de esforços políticos, culturais e educacionais contribuiu muito para sua difusão.

A cultura chinesa conceitua a inteligência como um atributo da família. Por isso, houve um esforço muito grande para que as escolas envolvessem as famílias no processo de implantação. As implementações na China não foi cópia do uso da teoria nos EUA, acolhendo a perspectiva válida e autêntica das MI sobre a natureza humana e sobre as habilidades intelectuais.

Ao envolver as famílias no processo de implementação da teoria, os educadores visaram ao desenvolvimento da inteligência intrapessoal e buscaram um ambiente propício fora da escola para o desenvolvimento de todas as nove inteligências.

O fato de envolver as famílias foi um dos passos mais bem-sucedidos do processo de implementação da teoria na China. Acredito que a mesma estratégia deve ser adotada pelo Brasil. Inicialmente, soou-me estranho ouvir que a inteligência era vista como um traço da família e não do indivíduo. Porém, com o decorrer dos nossos estudos sobre a teoria, ficou claro esse conceito. O que entendemos dessa afirmação é que o ambiente familiar reflete no desenvolvimento das inteligências e, portanto, o trabalho na família reflete como um todo no indivíduo.

Política de portas abertas


"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses." - Rubem Alves

Como se sabe, a China ficou isolada do mundo por 30 anos (1949-1979), até que, em 1980, a política de portas abertas de Deng Xiaoping restabeleceu contato com o mundo. Houve uma explosão na busca por conhecimento e informações, o povo estava ávido por saber o que acontecia no mundo. A declaração que marcou o governo de Deng foi: “Não importa se o gato é preto ou amarelo; caçando ratos, o gato é bom”.

Com isso, os chineses deram início a uma busca de ideias e práticas ocidentais como a livre concorrência, a propriedade privada e métodos de ensino como o Montessori, só para citar alguns exemplos. Nesse cenário, foi possível a introdução da teoria das MI na China.

Virada educacional


"Toda alma é uma música que se toca." - Rubem Alves

O sistema educacional chinês não estava preparado para a demanda gerada a partir da política de portas abertas. Com uma educação completamente voltada para o vestibular, os chineses são famosos pelo foco em testes específicos. Porém, o mercado percebeu que os jovens não estavam sendo preparados para a vida ou para o trabalho.

Houve, então, uma grande mobilização, por parte dos educadores, na busca por novas práticas de ensino que atendessem à demanda do crescimento econômico imposto pela política de portas abertas.

O ministério da educação da China respondeu ao apelo dos educadores e, em três diferentes momentos, criou as Diretrizes da Reforma do Sistema Educacional Chinês (1985), as Diretrizes da Reforma e Desenvolvimento Educacional da China (1993) e a Diretriz para a Reforma de Currículo na Educação Compulsória (2001).

Essas diretrizes deveriam atender aos seguintes pré-requisitos: respeitar as características evolutivas das crianças, dar atenção à individualidade e dar ênfase à aprendizagem ativa. Como a teoria das MI atendia a todos os pré-requisitos, o ministério da educação identificou-a como estrutura fundamental para reforma curricular.

Conceito de inteligência na China


"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas." - Rubem Alves

Como dito anteriormente, os chineses veem a inteligência como um traço da família e não do indivíduo. A origem desse pensamento remete à tradição confuciana e até hoje é muito valorizada pelo povo chinês. A família é considerada um agente coletivo da inteligência. Principalmente quando a criança é pequena, para os chineses, é difícil desassociar pais e filhos do ponto de vista existencial, emocional ou intelectual. Para Confúcio, a família é uma unidade fundamental e irredutível quando os filhos são pequenos.

Dentro dessa concepção, os chineses implantaram a teoria das MI. Na metodologia de implantação da teoria, foi reservado espaço amplo para a participação da família. Escolas foram abertas no período da noite e em fins de semana para que os pais recebessem treinamento na teoria. Além disso, eles foram incentivados a dividir com os professores percepções sobre seus filhos e as múltiplas inteligências.

Os educadores trataram as inteligências de todos os membros da família com o objetivo de contribuir na educação das crianças, entendendo que as inteligências das crianças eram uma extensão da família. O alinhamento dos pais com os professores foi fundamental para o desenvolvimento da teoria e, consequentemente, das crianças.

Os chineses deram muita ênfase ao desenvolvimento da inteligência intrapessoal das crianças. O currículo voltado para as MI ensina as crianças a entender sentimentos, valores, necessidades, interesses e esforços de seus pais ao criá-los. Esse processo trouxe um beneficio muito grande ao núcleo familiar – tanto os filhos passaram a entender melhor o esforço dos pais quanto os pais passaram a respeitar mais a individualidade de seus filhos, contribuindo, de forma singular, para o surgimento de autoconsciência e para a formação da identidade da criança. Com esse trabalho, cresceu muito o desenvolvimento das inteligências intrapessoal e interpessoal da família como um todo.

Como a sociedade chinesa entendeu a teoria das MI


"Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores." - Provérbio Chinês

A China percebeu que a teoria das MI respeitava um dos principais conceitos da sociedade chinesa, a harmonia. Ao conceituar inteligência, a teoria das MI promove o pluralismo e a igualdade, indo de encontro aos principais filósofos que influenciaram a educação e a cultura chinesas.

Em vários países em que a teoria das MI foi implantada, os educadores trabalharam na observação dos perfis das crianças e na identificação das qualidades intelectuais.

Na China, os educadores relutam em usar o termo qualidades, pois acreditam que seria um erro considerar como qualidades realizações relacionadas a uma única inteligência, como o uso da inteligência linguística para escrever um romance ou da inteligência musical para se apresentar no palco.

Para os chineses, essas caracterizações correm o risco de sugerir que uma inteligência funciona e tem correlação única com um determinado tipo de desempenho. Eles acreditam que ao invés de se concentrar apenas nas qualidades, é importante se concentrar na mesma proporção nas limitações ou vulnerabilidades, criando um contexto global do indivíduo e evitando, com isso, um entendimento parcial e incompleto da criança.

Os educadores chineses viram na teoria das MI uma oportunidade de potencializar os pontos fortes e ajudar as crianças no entendimento de suas limitações e vulnerabilidades, assim como o apoio de como superá-las.

Todo esse trabalho buscou dar harmonia ao processo educacional, valor fundamental da cultura chinesa.

Seguindo orientação do projeto nacional lançado pelo ministério da educação chinês, muitas escolas buscaram preservar a harmonia equilibrando a relação entre mais e menos no currículo e no ensino.

A ideia de que “menos é mais” se tornou um princípio pedagógico em muitas instituições chinesas.

A dra. Jie-Qi-Chen explica:

“Os professores dessas escolas começaram a entender o significado e o valor de ensinar “menos”, usando a estrutura das MI. Ensinar “menos” significa que os professores e seus alunos buscam o conhecimento profundo sobre conceitos relacionados que possam ser aplicados a atividades cotidianas. O domínio desse conhecimento profundo, na forma de conceitos e habilidades fundamentais, leva os estudantes a explorar aplicações de conceitos em uma ampla gama de áreas curriculares. Ao explorar aplicações, os alunos encontram novos conceitos e habilidades fundamentais que passam a ser objetivos do novo ciclo de aprendizagem. Durante esses ciclos, os professores equilibram profundidade de conhecimento e compreensão com amplitude de exposição e diversidade de oportunidades de aprendizagem.”

Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências.

Os educadores chineses, quando aplicam a teoria das MI, buscam avançar rumo a uma educação coletiva individualizada.Inspirados na teoria das MI proposta na reforma curricular, os professores pedem aos alunos do ensino médio que gerem perguntas baseadas em materiais de revisão, em vez de simplesmente responder às perguntas formuladas por eles.

Professores chineses e a teoria das MI


"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida." - John Dewey

A teoria chegou na China em meio a um conflitante trabalho dos professores, que estavam lutando bravamente para aliviar a pressão sobre os estudantes e, ao mesmo tempo, tendo que prepará-los para o vestibular.

A teoria teve uma aceitação muito grande por parte dos professores, porque era coerente com a nova política educacional chinesa: “Educação para qualidade”.

A nova política prega que as escolas devem desenvolver formas diferentes de aprender e de se desenvolver, e que a excelência acadêmica não deve ser a única forma de avaliar o desempenho dos alunos.

Hoje, com a introdução dos pais no processo de aprendizagem, professores e pais estão sensíveis às outras habilidades dos alunos, como artes, esportes, música e educação moral.

Os educadores passaram a dar mais atenção a casos de alunos que não se saíram bem no ensino formal, mas se revelaram prodígios em outra área.

Atualmente com 2 bilhões de habitantes, a China não disponibiliza orçamento para educação proporcional a sua população. Salas de aula com 60 alunos, em média, dificultam o conceito de educação para qualidade e reforçam a prática de educar para exames. Assim como é no Brasil, os chineses acreditavam que o único caminho para o “sucesso” de seus filhos era a faculdade e essa crença alimenta o círculo vicioso de se educar para os testes.

Muitas escolas usam o discurso de “Educação para qualidade”, mas, na prática, aplicam “educação para exames”.

Dra. Chen explica:

“Os educadores chineses chegaram à etapa da prática reflexiva em MI. Após o estágio inicial de exploração da teoria, seguida de amplas atividades de implementação, agora sentem a necessidades de realizar o que se chama de “processo de reflexão calma”. No centro desse processo está como integrar mais a teoria ao contexto chinês contemporâneo.

O objetivo da prática reflexiva é usar a teoria das IM para atender às necessidades da reforma educacional chinesa e implementar as práticas baseadas nessa teoria que são marcadas por características chinesas específicas.”

Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências.

Múltiplas Inteligências – Organizando o Movimento


"A educação começa com a poesia, firma-se com a autodisciplina e completa-se com a música." - Confúcio

Com o intuito de atender à forte demanda de professores e pais que estavam ávidos por entender como trabalhar com as MI, foi fundada a Multiple Intelligences Education Society of China – MIESC, uma organização sem fins lucrativos, em abril de 2003, compondo-se de escolas, professores e pais dedicados a ideias e práticas das IM. Observa-se que a organização nasceu 8 anos depois do início da divulgação da teoria no país.

Foram organizados oficinas, seminários e conferências para professores, administradores de escolas e formuladores de políticas, normalmente organizados em parceria com a comissão local de educação.

A organização tem realizado um trabalho catalisador com todas escolas que trabalham com a teoria das MI, incentivando que o máximo de ações envolvendo as MI seja registrado e posteriormente compartilhado. Dá, ainda, suporte na avaliação de currículos, instalações e programas de formação de professores e pais.

A teoria teve um grande impacto nas escolas especiais, pois ofereceu à instituição e a seus professores uma nova forma de ver as potencialidades dos alunos. Acreditamos que esse é um passo importante, o primeiro na etapa de implantação, fazendo com que os professores e pais entendam que todos os alunos têm um potencial latente que precisa ser desenvolvido.

A teoria trouxe luz para as escolas especiais, uma nova forma de ver as capacidades e as limitações singulares de cada aluno, e de elaborar atividades para eles.

Os alunos adoraram os novos programas e ganharam mais autoconfiança, porque seus talentos foram identificados e incentivados e suas dificuldades, evitadas. Vários deles participaram dos Jogos Paralímpicos e ganharam prêmios.

Em uma dessas escolas, uma professora descobriu que uma de suas alunas, SiruiJia, tinha a inteligência corporal-cinestésica bem destacada e passou a incentivá-la na prática de ginástica. A menina se especializou em manobras no “cavalo” e foi medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos. Após se tornar mundialmente conhecida, foi nomeada embaixadora internacional da organização, sendo recebida na Casa Branca por três diferentes presidentes.

Histórias como a de Sirui-Jia servem de inspiração aos professores da escola, onde as aulas de música e trabalhos manuais passaram a ser as mais procuradas.

O público que visita a escola fica impressionado com a alegria com que as crianças participam das aulas de músicas, constroem instrumentos e fazem artesanato em madeira, porcelana e tecido.

O sucesso do trabalho levou o governo chinês a convidar a MIESC para o comitê de reforma do ensino técnico e encomendou um estudo para a aplicação da teoria em todo o ensino técnico da China.

MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA CHINA CONTINENTAL


"Educação é que nem moeda de ouro,é valida no mundo todo." - Provérbio Chinês

Vários fatores contribuíram para a penetração da teoria das MI na China. Entre eles, o contato com a teoria logo após sua criação e a admiração da cultura chinesa pelo dr. Howard Gardner.

O público que se encantou logo de início pela teoria foram os professores de música. Alguns arte-educadores confirmam haver inteligência existencial em conexão com as artes e tentam inspirar a experiência cristalizadora dos estudantes com a inteligência existencial por meio da apreciação da música.

No final do século XX, a teoria já havia ganhado corpo na China inteira. Das grandes cidades a pequenos vilarejos, diversos congressos sobre aplicação da teoria foram promovidos, alguns deles com a presença do dr. Howard Gardner.

Frente ao impacto promovido pela teoria junto aos educadores e à Associação Educacional da China, surgiu um projeto chamado Pesquisa Aplicada da Teoria das Múltiplas Inteligências no Desenvolvimento do Potencial dos Estudantes. Em fevereiro de 2002, mais de 150 escolas do ensino infantil a universidades promoveram significativo movimento simultâneo em prol do estudo da teoria.

O objetivo do projeto era estudar a teoria e sua aplicabilidade, ou seja, a prática. Para tanto, patrocinou quatro grandes conferencias sobre o tema, algumas atraindo pessoas do mundo todo. Em decorrência desse movimento, estima-se a publicação acima de 3.200 artigos e mais de 100 livros sobre a teoria traduzidos para o chinês. O livro “Múltiplas inteligências – A teoria na prática” permaneceu entre os livros educacionais mais vendidos no decorrer de 2003.

O Ministério da Educação da China, em 1999, realizou outro grande movimento em prol da melhoria da educação, lançando o programa “Educação para o caráter”.

Ele deveria ser aplicado a todos os estudantes, sem exceção.

Os educadores chineses foram devidamente orientados que o propósito da educação passava a ser o de promover o desenvolvimento em termos morais, intelectuais, físicos e estéticos.

A teoria das MI deixava de ser um luxo para se tornar uma necessidade, pois o novo programa educacional exigia que fossem criadas diferentes formas de abordagem do mesmo tema, com o intuito de trazer à tona as mais diversas aptidões dos alunos.

O programa “Educação para o Caráter” foi considerado o mais importante movimento do século XX para educação chinesa. Propôs reforma no conteúdo e na metodologia do ensino, mudou o processo de ensino e aprendizagem e, ainda, provavelmente, o passo mais decisivo: mudou o sistema de seleção dos professores.

Outro grande salto da nova política foi dado em 2004. O ex-vice-premier da China publicou um livro de reflexões sobre o projeto “Educação para o Caráter” e cita diretamente a teoria das MI e os estudos do Dr. Howard Gardner.

Ele escreveu: “A teoria do Dr. Gardner, das múltiplas inteligências, evita as teorias tradicionais sobre inteligências e afirma que cada pessoa tem suas qualidades devido a diferenças nessas oito categorias. Sua teoria oferece um panorama amplo das capacidades individuais das pessoas e defende adágios como ‘os céus nos concederam o talento e também encontrarão seu uso um dia’ e ‘todo ofício gera seus próprios mestres’. [...] Ela proporcionou uma importante inspiração e valiosas referências para nossos esforços de realizar a educação para o caráter” (Li, 2004 , p. 316).

Ainda citou que a teoria das MI prega que o propósito das escolas deve ser o de desenvolver as diversas inteligências nos alunos, conduzindo-os para atingirem objetivos educacionais adequados a seus espectros de inteligências. Na opinião dele, a teoria das MI dava ampla sustentação à reforma proposta pelo projeto “Educação para o Caráter”.

PAPEL DAS ARTES NA REFORMA “EDUCAÇÃO PARA O CARÁTER”


"A finalidade da arte é, simplesmente, criar um estudo da alma." - Oscar Wilde

É importante relembrar o cenário em que a teoria das MI desembargou na China. Começava o movimento de abertura do país para o mundo depois de 30 anos da política de linha dura que fechou a China.

Esses anos foram devastadores para a educação artística. Porém, estamos falando de uma cultura milenar e, por isso, esses 30 anos não afetaram em nada a sociedade intelectual, artística e o próprio povo.

Vale ressaltar que o maior filósofo chinês, Confúcio (551-479 a.C.), além de filósofo e educador, foi um excelente músico, compositor e professor de música.

Ele pregava, quase 500 anos antes de Cristo, que a poesia e a música eram essenciais para a vida e formação de um cidadão. Nos seus milhares de textos, defendia que o desenvolvimento da moralidade começava com uma boa base em literatura e artes, seguindo para a música e declarou: “Inspire-se nos poemas, fortaleça sua moralidade com ritos e encontre sua realização na música” (Confucian Disciples, 1977, p. 33).

Confúcio defendeu que a educação tinha dois pilares fundamentais: educar sem distinção entre classes sociais e perfis de inteligência e ensinar os alunos usando diferentes materiais e abordagens.

Fica claro por que a teoria se propagou tão rápida e fortemente na China: ela defendia seus principais conceitos seculares.

Gardner defende, na sua teoria das MI, a interação entre disciplinas: educar de forma diferente pessoas diferentes. As pessoas, necessariamente, não aprendem da mesma forma e por isso o mesmo conteúdo deveria ser abordado por diversas perspectivas.

Outra conexão defendida pela teoria é a das artes com ciências. Como psicólogo evolutivo, neurocientista e pianista, Gardner chama a atenção para a centralidade das artes na educação. Essa centralidade é aplicada na íntegra no Projeto Zero, dirigido por ele desde 1967.

Ele afirma que qualquer inteligência funciona artisticamente, ou seja, artes são transversais na educação e, de forma direta, impactam as inteligências – musical, espacial-visual, cinestésica-corporal, lógico-matemática e linguística. Subjetivamente, mas com forte impacto, temos as inteligências intrapessoal e interpessoal, uma vez que as artes estão diretamente relacionas às emoções e à capacidade de expressá-las.

Os chineses acreditam que as artes estão diretamente conectadas com a inteligência existencial, já que artes, para os chineses, são a manifestação da inteligência existencial. Existem diversas obras mundialmente conhecidas que expressam o amor pela natureza, fechando, assim, a conexão artes x múltiplas inteligências.

Múltiplas inteligências na China – Resumo


"A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação." - Eça de Queirós

Em suma, acredito que o sucesso da implantação da teoria na China pode ser traduzido como uma somatória de fatores.

– A teoria vai de encontro à filosofia de vida dos chineses, o processo de entendimento foi muito simples.

– A relação profunda que Gardner mantém com a cultura chinesa e seu apoio direto foram muito importantes.

– A teoria nasceu em Harvard, universidade mais admirada no mundo pelos chineses.

– A teoria abrange todos os preceitos das novas políticas educacionais propostas pelo governo.

– A nova política educacional da China, onde menos é mais, coincide com a teoria e com os pensamentos de toda a equipe educacional de Harvard, incluindo o dr. Howard Gardner.

– Os chineses defendem que devemos diminuir a profundidade dos conteúdos na grande maioria das matérias, mantendo a amplitude do ensino, e aprofundar em pelo menos quatro, mantendo a profundidade. Em resumo, manter a amplitude e diminuir a profundidade na maioria das matérias, e manter a profundidade em matemática, ciências, história e artes.

– A organização formal para conduzir o assunto e o apoio do governo foram fundamentais, incluindo o patrocínio pelo governo em conferências, palestras e intercâmbios.

Múltiplas inteligências – Coreia do Sul


"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente." - Simone de Beauvoir

A sistema educacional da Coreia do Sul sofreu uma forte influência dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, quando foi transferido o conceito falido de uma educação quantitativa, excessivamente avaliada por testes múltiplas escolhas.

Em 1960, o país adotou um regime militar, traçou metas arrojadas de crescimento econômico e para, atingir as metas estabelecidas, entendeu que o único caminho seria por meio de uma educação de qualidade, decisão atípica de uma ditadura, que, com poucas exceções, sempre destrói a educação, evitando dar mais consciência ao seu povo.

Para o governo sul-coreano, é a educação de um país que sustenta o crescimento econômico e, por isso, concentrou a gestão da educação nas suas mãos. Mais uma vez, de forma errônea, focou em um ensino quantitativo e medições por testes tipo múltiplas escolhas, reforçando o sistema trazido pelos americanos no pós-guerra. Chama-nos a atenção que estudiosos na década de 1960 já avaliavam esse modelo como falido e, mesmo assim, Estados Unidos e Brasil insistem nesse caminho.

O foco da educação coreana era o ingresso nas universidades.

Assim, todas políticas educacionais foram direcionadas neste sentido. Como aconteceu em todos os países que adotaram esse sistema educacional, a Coreia do Sul começou a sofrer os prejuízos já conhecidos, principalmente um estresse excessivo nos jovens e uma insatisfação generalizada dos pais.

Em 1988 o governo autorizou que jovens sul-coreanos poderiam fazer intercâmbio com países aliados. Estima-se que 40 mil jovens foram mandados para países de língua inglesa, principalmente os EUA.

No final da década de 1980, a teoria das múltiplas inteligências desembarcou na Coreia do Sul, tendo uma aceitação muito grande, pois atendia a três pré-requisitos que o governo estava determinando para a nova política educacional e reforma curricular do país: buscavam uma teoria que se ajustasse ao ambiente cultural, social e educacional da cultura sul-coreana.

Assim como na China, a teoria começou a ser trabalhada de cima para baixo, envolvendo professores, pesquisadores e formuladores de políticas. A reforma baseada nas MI começou nas salas de aula, literalmente de baixo para cima, e especialistas do país reportam o fato como decisivo para o sucesso da implantação da teoria.

Todas as teorias que seguiram o caminho de cima para baixo fracassaram, pois ignoraram a opinião de professores, diretores, pedagogos e formuladores de políticas educacionais. A teoria das MI seguiu caminho oposto e professores que receberam treinamento começaram a testar, inicialmente em sala de aula, e os resultados foram surpreendentes.

Pela primeira vez, pesquisadores, formuladores de políticas e a base, professores e escola, estavam trabalhando juntos e isso criou sustentação para o avanço da teoria no país.

Dois anos após sua chegada, começou um trabalho oficial, em 1990, de implantação da teoria no país, então com a chancela do governo. Nesses dois anos, foi produzido muito material de qualidade e, quando oficializada, surgiu uma avalanche de artigos, matérias e divulgação em programas de TV, com o reforço de que todos os cases apresentados eram de testes no próprio país, já com a devida aculturação.

Toda essa divulgação mobilizou os gestores educacionais no sentido de apoiarem projetos de implantação e estudo da teoria em todos as séries escolares.

A principal universidade do país começou a promover oficinas e passou a tratar a teoria das MI como modelo de aprendizagem, métodos educativos e abordagens naturalistas de avaliação.

Esse trabalho facilitou muito o entendimento e a propagação da teoria. As escolas experimentais apresentaram alguns resultados, tais como melhoria do desempenho escolar, entusiasmo intelectual, curiosidade e atitudes positivas com relação ao aprendizado.

Quando a teoria atingiu a mídia de massa, ela se firmou junto a pais e professores, e, assim como na China, as famílias tiveram um papel decisivo na implantação. A teoria aumentou a motivação, a autoconfiança dos professores que recebiam incentivo para desenvolver os próprios métodos de avaliação baseados nas MI e, com o tempo, os próprios currículos. Com esse movimento todo em torno da teoria, foi criada a Associação Sul-Coreana de Educação pelas Múltiplas Inteligências.

Múltiplas inteligências – Apoio governamental


"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina." - Cora Coralina

Com denso material gerado pelas escolas experimentais, o governo promoveu simpósios, conferências, palestras e oficinas pelo país – inclusive, em 2000, uma conferência aberta pelo próprio dr. Gardner.

Frente a esse forte movimento, os formuladores de políticas educacionais começaram a reconhecer que a teoria poderia desenvolver um novo paradigma para educação.

Ainda no ano 2000, o ministério da educação produziu um vídeo sobre a teoria dirigido pelos próprios professores, apresentando exemplos de como aplicar a teoria na sala de aula. O maior impacto promovido pelo ministério foi a inclusão da teoria no sétimo currículo nacional sul-coreano.

Então, a nova proposta buscava dar diversidade às metodologias de ensino, respeitando as individualidades, promovendo uma mudança fundamental para o aumento qualitativo da educação, mudando de uma educação voltada ao professor para uma educação voltada para o aluno, reforçando muito a perspectiva que o ensino deve abordar formas diferentes de lecionar para diferentes personalidades de alunos, a raiz da teoria das MI.

Uma vez adotada no sétimo currículo nacional, a teoria ganhou a dimensão nacional e seu uso se tornou sistemático e difundido.

Desafios na implantação da teoria na Coréia do Sul


"A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces." - Aristóteles

Como aconteceu em quase todos os países, os professores se viram um pouco perdidos inicialmente, pois a teoria desembargou no país sem um manual de como implementá-la ou mesmo como aplicá-la. Chamo a atenção para esse ponto porque foi um problema mundial, ou seja, todos os países passaram por essa fase e a própria teoria prega que não há como fazer uma transferência direta, é preciso aculturação.

Um grande desafio que a Coreia enfrentou foram movimentos precipitados por parte de alguns professores e escolas que começaram a implantação sem se aprofundarem nos conceitos da teoria. Estavam mais preocupados em criar uma forma de medir o impacto da teoria do que em entendê-la e ficaram muito presos, inicialmente, em achar a maneira “certa” de aplicar a teoria.

Um erro cometido por vários países, preocupação para quem trabalha com a teoria, foi iniciar com a tentativa de criar um teste que mede as nove inteligências dos alunos, seguindo a lógica da teoria do QI.

Isso fere o conceito da teoria em cheio, pois uma das maiores críticas que ela trouxe ao modelo anterior é que a inteligência de uma pessoa não pode ser mensurada em apenas um teste, como Binet sugeriu em 1900 – é necessário um acompanhamento com tempo de qualidade e mais: a teoria defende que todas as pessoas nascem com todas as inteligências, mesmo que algumas ou várias fiquem de forma latente aguardando um estímulo.

Esse conceito é de fundamental importância. Uma pessoa pode herdar uma predominância em uma determinada inteligência, mas isso não quer dizer que ela não tenha outras inteligências que podem se manifestar de forma ainda mais forte do que as que já apresentam relevância.

Esse erro é recorrente, as pessoas querem adotar a teoria usando a lógica atual, que tem como base a teoria do QI, o que simplesmente fere os preceitos básicos da teoria.

Cada cultura tem que entender o conceito macro das inteligências e desenvolver métodos de avaliação e implantação – ninguém escapou desse processo. A cultura ocidental de medir tudo o tempo inteiro, buscando respostas imediatas para assuntos que demandam tempo, levam formuladores de políticas, professores e escolas a cometerem esse tipo de erro.

Fica aqui um alerta a professores e pais: a identificação do perfil de inteligência de uma pessoa começa pela observação acurada e não por testes.

Esse foi um equívoco que atrasou muito o processo na Coreia e China. Levou um tempo até todos os envolvidos no processo entenderem essa mecânica, pois a avaliação dos alunos com base na teoria das MI é qualitativa, em um processo que envolve inclusive o próprio aluno como avaliador.

Uma vez superada essa fase de entendimento, os pesquisadores conseguiram documentar e reconhecer diferentes formas de avaliação e aprendizado, e esse reconhecimento aproximou definitivamente alunos e professores no processo de avaliação.

Assim, cada aluno pode expressar a própria capacidade.

O fato é que professores, pedagogos, pais e os próprios alunos passaram a ter uma percepção diferente do que é ser ou não inteligente e esse fato mudou completamente as relações aluno-escola e aluno-família.

No início, a questão das avaliações multidimensionais de MI causou receio por parte dos professores. Mas, conforme iam aparecendo os resultados, o método foi tomando corpo.

O envolvimento dos próprios estudantes no processo de avaliação, permitindo que expressassem seu nível de compreensão de diversas maneiras, resultou em uma melhoria significativa na aprendizagem.

Muitos pais antes aflitos com a percepção de que seus filhos eram limitados, assim como essa mesma percepção por parte dos próprios alunos quando não conseguiam ir bem nos testes padrões, passaram a admirar a nova abordagem e se aproximaram mais do processo de aprendizagem dos seus filhos.

Uma das formas encontradas para desenvolver a inteligência intrapessoal dos alunos foi criar um diário de reflexão.

Muitas escolas introduziram o momento do silêncio e respiração, em que as crianças eram incentivadas a refletiam sobre esse tipo de questão em silêncio. Essas ações tiveram um impacto muito grande na inteligência interpessoal dos alunos.

Os professores começaram a incentivar que alunos passassem a refletir sobre o aprendizado do dia e a considerar a si mesmo como pessoas capazes de avaliar sua evolução, desenvolvendo suas habilidades de pensamento metacognitivo.

Esse fato foi uma mudança muito grande de paradigma, migrando de um processo em que o professor tinha o poder único de avaliação dentro da sua percepção e resultados de testes tipo lápis e papel. O novo processo trouxe autocompreensão e autoconfiança, dois aspectos diretamente relacionados como a criatividade.

Na Coreia, assim como em diversos outros países, o receio por parte de professores e pais de que a teoria das MI pudesse gerar uma queda no desempenho escolar dos alunos foi motivo de muitos questionamentos. Porém, o tempo provou exatamente o contrário: os alunos desenvolveram autoconfiança e passaram a entender o processo de aprendizagem; sob menos pressão, encontraram prazer no que estavam fazendo. Houve um aumento significativo em matemática, línguas e na habilidade dos alunos de desenvolverem pesquisas científicas.

Mas, antes de tudo, na minha opinião, o mais importante resultado foi a mudança da relação dos alunos com a escola e com os pais. A escola deixou de ser um ambiente de tortura e sacrifício e tornou-se um local de autoconhecimento; pais e filhos passaram a discutir o processo de aprendizagem com base no respeito mútuo.

Um fato relevante deve ser ressaltado: os pais precisam ser capacitados ou o processo pode ficar muito prejudicado.

Normalmente, leva um tempo até os professores entenderem que o processo avaliativo não segue o padrão atual. Com a ajuda de outros professores e de vídeos produzidos pelo ministério da educação, foi possível superar essa fase.

Como é de se esperar em qualquer país onde o ensino é desenvolvido com base em livros textos e com o ensino centralizado e uniforme, inicialmente professores manifestam a impossibilidade de cumprir as exigências do currículo normal e ainda avaliar, de forma individual, os alunos.

Leva um tempo até os professores entenderem que eles não são mais protagonistas da avaliação, que passaram a ser parte do processo. Devagar, foi criada uma rede de professores que permanentemente registravam seus sucessos e fracassos e logo surgiram muitas ideias de como adaptar os livros textos usando as MI.

Os professores passaram a selecionar temas centrais a partir dos livros textos e construir o currículo em torno deles com base na aprendizagem voltada para as MI.

Os especialistas avaliaram que a teoria trouxe uma melhoria significativa na educação da Coreia do Sul, principalmente em quatro áreas: aumento na amplitude do alcance da educação para o caráter, novas formas de avaliar a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos, mais crescimento dos professores e melhoria na aprendizagem de alunos com baixo desempenho.

Em outro artigo, citei o caso da professora Ham, que, pelo treinamento em MI, pôde perceber que um aluno que apresentava um desempenho muito baixo era um grande conhecedor de insetos. Ela aproveitou o gancho e introduziu o assunto nas aulas de ciências, desenvolvendo, juntamente com a criança, que apresentava problemas, o conteúdo das aulas sobre insetos, uma vez que o menino era um profundo conhecedor e colecionador. Esse fato mudou o desempenho da criança na escola, gerando autoconfiança, e ele passou a ser respeitado pelos colegas.

Veja o depoimento da professora Ham:

“Fico feliz de ver meus alunos mudarem. Crianças que costumavam trazer pedras para a escola ou que desejavam que ela não existisse, ou que vinham sem qualquer ideia, agora vê à aula curiosas sobre o que vão aprender naquele dia. Uma aula baseada na teoria das IM não torna a sala de aula competitiva. Ela torna a aprendizagem interessante, e não tediosa. A motivação está mais relacionada a sensação interna de satisfação do aluno do que qualquer influência ou compensação externa. Acho que é por isso que a prática das IM faz tanta diferença para os que têm baixo desempenho.”

(Howard 118) - Howard, GARDNER,, CHEN, Jie-Qi, MORAN, Seana. Múltiplas Inteligências.

O importante é estarmos atentos a formas imprudentes de propagar a teoria das Múltiplas Inteligências. É preciso ir a fundo nos conceitos antes de aplicá-la.

O primeiro passo é trabalhar o modelo mental sobre avaliação dos alunos e trabalhar na aculturação da teoria, respeitando a cultura de nosso povo.


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